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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

doença

as cidades são o câncer do mundo
semeando cinza
alteram o metabolismo do tempo
aceleram a pulsação por rodovias engarrafadas
tudo e todos correndo correndo correndo atrás de nada
até que explode
uma bomba, um louco, um poema

(Fabio Rocha)

sábado, 17 de setembro de 2011

terça-feira, 13 de setembro de 2011

AINDA SOBRE OS SONHOS

aonde me levam meus dentes moles?

terras de gelo polar
ventos cortantes
constantes frios

aonde me levam meus dentes móveis?

seios e receios de falta
nenhuma fogueira pra iluminar o calor
nenhuma faca

aonde me levam meus dentes ignóbeis?

noites longas durante o dia
falta de sono
sobra de plano
falta de ano
falta - essencialmente - de um piano

se não for pra sonhar, melhor não dormir?

(Fabio Rocha)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

TENSÃO NO TRABALHO

escrito no escritório:
cansaço perene do movimento vão
pedra que sou
estátua que não move fingindo ser carne movente
fingindo ser rocha
fingindo ser gente
acoplada à mesa cinza
enquanto estabilizadores
estalam

(Fabio Rocha)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

UIVO


(Para Allen Ginsberg)

caminhamos

os poetas se escondem
entre pratas roubadas e pulgas
em apartamentos ínfimos abaixo dos metrôs
em comportamentos íntimos expostos
em manicômios e alucinações auto-impostas
tomando choques de realidade constantemente
batendo de automóvel em comportamentos estabelecidos
sofrendo na solidão dos eternos inícios entre bocas nos cinemas
um milhão de promessas de amor fodidas, todas sagradas, tudo sagrado
presos por cimento e concreto na literalidade azul de Alcatraz
presos na pobreza da prosa monetária auto-ajuda sem sangue nem presas
rebelam-se voando em cores de telhados
suicidas agarrando a vida pela camisa só pra gritar na sua cara: "Estou vivo!"
fortalecidos ou mortos
fortalecidos ou mortos pelo poema da vida
derramam-se hidroterapeuticamente doces em bueiros porcos
dão aulas de educação moral e cívica em puteiros
sobrevivem nos cantos
têm epifanias na última porta fechada com perfume às quatro da manhã
sob o peso do belo mais pútrido
sem nenhuma visão da Eternidade além da pele feminina
só por causa dos cantos
de sua própria garganta
(gargalo de prantos e planos)
seguimos nos arrastando lindamente pro alto, aranhas de poucas pernas
seguimos além do muro
além
da
palavra
sonho

(Fabio Rocha)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

ODES NETUNIANAS

vejo os homens retangulares
em exercícios de vida regulares
moldando-se em cubos de gelo
métodos e ciências em cubículos de ser
contidos se contendo e ensinando a se conter
tomando ansiolíticos em vez de LSD
e vendo novelas em TVs de LCD

mas aí vejo você, tão perto
e nada em mim pode não ser explosão e fogo
mas aí vejo você, vulcão
e numa frase apenas ouço a nona de Beethoven

mas paro

paro pois acredito ainda nos homens quadrados
e no meu passado de dor e cegueira
cegueira recorrente
suicídios múltiplos

embainho a espada
e guardo meu máximo num poema

(Fabio Rocha)

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

domingo, 26 de dezembro de 2010

MÉTODO CERTINHO

mulher é fruta
que se colhe
direto do pé da noite

(sem intermediários)

...

depois
se morde
o veneno

e se perde

e se fodem
os planos

(curvas eucaristiam
o contínuo aumento
da fome)

(Fabio Rocha)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Traduções de meus poemas numa revista literária de São Petersburgo (Rússia)

(Traduções de Ekaterina Balakhonova. Clique acima para ampliar a revista escaneada.)

Os poemas que foram traduzidos, retirados do meu site, abaixo. 3 desses foram publicados na revista literária "Sfinks" ("Esfinge"): "Não pise na grama", "Culpa" e "Vice-Rei".


NÃO PISE NA GRAMA

Placa inútil e amarela:
"Não pise na grama."

Amarela
pela ausência de girassóis.

Inútil
porque não tenho os pés no chão.

Fabio Rocha www.fabiorocha.com.br
(do livro TUDO PELOS ARES)


TUDO PELOS ARES

Somos anjos perdidos.
Asas mortas no chão
desde a primeira audição
da palavra impossível.

Fabio Rocha www.fabiorocha.com.br
(do livro TUDO PELOS ARES)


JANEIRO

O dourado vence o vermelho
no dia nascente.
A revanche: o crepúsculo.

Verão.
Estação de sonhos e ócio.
Já cheira a saudade
antes de esquentar.

Provar as bênçãos
dos bons arcanjos
em trajes de banho
sobre a areia branca

e a irregularidade
dos horizontes
das cidades
do interior
da alma.

Fabio Rocha www.fabiorocha.com.br
(do livro TUDO PELOS ARES)


TANGO MIO

Perdi o passo.
Sem equilíbrio,
pisei no pé do caos.

Meu ócio antigo
se embriagava no bar,
cercado de inimigos.

O sonho não realizado
fumava-se, cabisbaixo,
num degrau abaixo.

Adivinhei minha esperança inteira
lá fora, no beco de Bandeira,
mendigando.

Ah, se em minha alma
tocasse funk...

Fabio Rocha www.fabiorocha.com.br
(do livro NA MEDIDA DO IMPOSSÍVEL)


REVELAÇÃO

Eu me esqueci no armário.

Pensei estar vivendo,
estudando, trabalhando, sendo!

Pensei ter amado e odiado,
aprendido e ensinado,
fugido e lutado,
confundido e explicado.

Mas hoje, surpreso,
me vi no armário embutido
calado, sozinho, perdido, parado.

Fabio Rochawww.fabiorocha.com.br
(do livro NA MEDIDA DO IMPOSSÍVEL)


INFÂNCIA

No vento,
Pedrinho perdeu
sua sombra.

- Cadê tua sombra, menino?
Gritou a mãe.

- Só não perde a cabeça porque está presa no pescoço.
Disse a vó.

Pedrinho ria a danar.

Depois foi estudar
enquanto a sombra brincava
de ser noite.

Fabio Rocha www.fabiorocha.com.br
(do livro PRALARVAS)


VICE-REI

Eu sempre estendi as mãos
para as borboletas...

Abria os braços
para o passado saudoso...
para o futuro sonhado...
mas nunca tocaram em mim.

Hoje, fiquei imóvel
e uma pousou no meu pé.

Fabio Rocha www.fabiorocha.com.br
(do livro VICE-REI)


PAPEL

De todo o silêncio
ouço só o esplêndido
silêncio das árvores.

Pois o silêncio de quem fala
e cala
é incompleto.

Por isso, ouço o silêncio
distante
das árvores que nunca vi.

Fabio Rocha www.fabiorocha.com.br
(do livro CAMINHO A MANHÃ)


WINDOW

Sou cavaleiro sem donzela
e meu escudo é uma tela.
Se eu não pensasse nela...
Suo frio na capela
se há casamento na novela.
Se eu não pensasse nela...
Sonho meu que não é meu:
já sonhava Romeu.
- Quem sonha? Ela ou eu?

Fabio Rocha www.fabiorocha.com.br
(do livro A MAGIA DA POESIA)


UMBRAL

Estou trancado.
Lá fora
leões
que amo.
A casa encolheu
ou eu que cresci?
Estou armado até os dentes.
Eles têm fome.
Ouço seus rugidos.
(Algo em mim quer ser um monstro.)
Cansado de ferimentos
olho para a porta
a chave pesando a mão.

Fabio Rocha www.fabiorocha.com.br
(do livro O OUTRO )



CULPA

Meus passeios
poluem o mundo.

Para ler,
gasto a luz de cidades inundadas.

A geladeira
esburaca a camada de ozônio.

Banhos longos
desertificam o planeta.

Para comer, beber, viver
gasto dinheiro (que nem ganhei).

Meus poemas
derrubam árvores.

Fabio Rocha 
www.fabiorocha.com.br
(do livro TUDO PELOS ARES)


OBS: Assim que soube dessas traduções de meus poemas pra língua de Maiakóvski, postei este
poema.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

NADA LÁ FORA


quando éramos
ali
os dois
a intensidade do jeito
todo querer possível aos braços presente
o cálice cantando no peito
o mundo um fraco fundo
quando éramos
ali
um
so(l)

(Fabio Rocha)

domingo, 21 de novembro de 2010

ALESSANDRA


se cismo
caminho e
caminho até acabar a estrada

então
com o coração acelerado
olho vagarosamente o nada
e volto

o sol na minha cara
é Alessandra do primário
magra e loura e rara
que sozinha dava estrelas
enquanto eu recebia
(abobadamente)
as primeiras sementes
da poesia

(Fabio Rocha)

sábado, 13 de novembro de 2010

VERDES

fecho suave as pálpebras
pros sinais fechados

(respiro sagrados
reaprendo ternuras
antecipo segredos)

abro a vida sutilmente
pros teus olhos

(Fabio Rocha)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

VERMELHO

a cada nova rosa
que brota em minha vida
crio clareiras no jardim
expurgo o passado de espinhos
arranco possíveis futuros daninhos
sou o sol
chamo a chuva
e todo o universo
que corre por minhas veias
acelerado e vermelho
corre por ela:
a rosa é única
e a rosa é tudo

(Fabio Rocha)

"Descobre onde dorme esquecido, no recôndito da tua mente, do teu coracao, do teu eu mais íntimo, o teu Pequeno Príncipe... E o desperta! Dali pra frente, em um instante, muito do que te parecia importante de repente perderá o valor. O que antes era urgente demais já não tera mais tanta pressa. E o que te deixava infeliz já não poderá mais agir sobre ti." (Exupery)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

PERFUME DE MULHER


Nossos poemas dançam tango, ambos cegos...
E se minha luz estiver no fundo de teus olhos?
E se meus olhos forem teu espelho verdadeiro?

(Fabio Rocha)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

sábado, 2 de outubro de 2010

MELINDA E MELINDA (A ENCRUZILHADA)

11:11

minha poesia
se afia
no novo

estranho infinitamente
o novo homem
que os novos amigos
vêem
dançando com bocas vida afora
subindo e descendo
abismos e paixões infindáveis
executando planos de não planejar

eles não acreditariam
em minha origem silenciosa

sempre fui introvertido
tímido
calado
mesmo agora
no meio do caos
no centro
do epicentro da vida
quando dentes
e bocas
e vozes demais
me mastigam
há uma pausa
de quando em vez
no auge do momento de maior riso
me vem aquela seriedade de Batman
aquela falta de agora
vontade de janelas escapatórias
de olhar o nada
e o mais estranho é que não tem nome de mulher a falta
não tem nome de nada
me aceito poeta melancólico
e é quase um carinho e um reencontro
naquelas noites
quando a cidade geme de gente
em som e fúria
naquelas noites
eu caminho pros cantos
devagar quase parando
volto a ser meu porto
e no sereno
serenamente
o silêncio me acolhe

(Fabio Rocha)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

ESTADO ALTERADO DA CIÊNCIA (FALTA)

do céu bucal ao chão gelado:
centelha de dente líquido passado
salivo pelo estado da guanabara não-vermelha
onde a sua boca se esconde

(a sua boca que não me salva, eu sei)

mas onde
onde a sua boca se esconde?

(Fabio Rocha)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

ESTRANHAMENTO

as entranhas do sentir são frágeis:
um momento de pensar
um segundo de atraso
e tudo se estranha

(Fabio Rocha)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

CANSAÇO DE AÇO


no fundo do abismo
escombros te cobrem
do pó ao pó
voltarás
voltou
revoltou
voou breve

agora fundamentas olhos curvos
sobre horizontes de giz

asas brotadas das costas do silêncio
no centro íntimo do nada

e mesmo assim
mesmo leves e imaginárias
se derretem em lágrimas
sob a constância do sol

(Fabio Rocha)