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terça-feira, 29 de junho de 2010

PRECE

cismo, insisto, tento
se tropeço, levanto
se choro, se grito, se corto
corto tão fundo e tanto
que nada peço a meu verso demasiado
escancarado, preciso, exagerado e com pressa
mas ele te encontra

mas quando levanto
me encontro
de quando em vez
basta o que há
o que tiver que vir, virá
e canto
pois nas fases de encanto
há um chance, uma pequena chance
de minha paz escrita
provisória paz no presente
espalhar-se manto
então peço a sorrir
espelhar um verso santo

(Fabio Rocha)

terça-feira, 26 de maio de 2009

SALA DE ESPERA (MUDANDO DE ANALISTA)

Sentamos na sala de espera. O som do silêncio é o relógio de parede que quebra, por não estar quebrado - infelizmente. Dura três longos minutos. Fala-se, então, das novas descobertas científicas na revista que podem nos fazer viver mais. Me pergunto para quê. E a caverna subterrânea, da beira do profundo nos observa, repleta de silêncio e coisas escuras por dizer. Entreolhamo-nos, semiconscientes dela mas sem coragem. O não-dito. O relógio segue. Ninguém desce a si.

(Fabio Rocha)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

SOLÚVEL EM TAO

Como a chuva
precipitamo-nos
em explicar, contar, planejar e fixar
quando na verdade
o mais importante pinga:
a percepção que logo escorre
o oceano para a gota
o sentido íntimo e único
para cada ser que é.

(Fabio Rocha), 29/04/2009, inspirado no curta "O Silêncio" (BH, 2005) e no maravilhoso livro "Ser Criativo - O Poder da Improvisação", de Stephen Nachmanovitch, que estou lendo por recomendação da minha analista.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

ALEGRO

Numa noite de sincronia
na tempestade que se forma
e se expande, e se afirma, e se espalha
em raios
ouço a música do ser.

Cantam o mesmo, em harmonia
Heráclito, Drummond, Nietzsche, Ravel, Whitman, Jung:
o mundo, a vida, a vontade, o universo, você...
tudo
é
um.

(Fabio Rocha)

terça-feira, 25 de novembro de 2008

CHRONUS

Ante a embriaguez do sono e do sonho
o trono do tempo
cheio de clareza e medida
treme.

Aceitar
carcaças na estrada
nas estradas várias
incontáveis
imprevisíveis.

Nada evitar
nada considerar menor
nada considerar ruim.

Tudo parte da vida.
Tudo é parte da vida!

Amar qualquer fato
ligado à ação!

Tudo humano, demasiado.

(Fabio Rocha)

terça-feira, 15 de maio de 2007

VÔO PELO CRIAR

Romper
limites estabelecidos:
ascender
pelo poder de fogo.

Tocar
com as pontas das asas
a serenidade sinuosa
das águas.

(Fabio Rocha)

A função transcendente não se desenvolve sem meta, mas conduz à revelação do essencial no homem. No início não passa de um processo natural. Há casos em que ela se desen­volve sem que tomemos consciência, sem a nossa contribuição, e pode até impor-se à força, contrariando a resistência do in­divíduo. O sentido e a meta do processo são a realização da personalidade originária, presente no germe embrionário, em todos os seus aspectos. É o estabelecimento e o desabrochar da totalidade originária, potencial. Os símbolos utilizados pelo inconsciente para exprimi-la são os mesmos que a humanidade sempre empregou para exprimir a totalidade, a integridade e a perfeição; em geral, esses símbolos são formas quaternárias e círculos. Chamei a esse processo de processo de individuação. Tomei o processo natural de individuação como modelo e diretriz para o meu método de tratamento. A compensação inconsciente de um estado neurótico da consciência contém todos os elementos que, quando conscientes, isto é, quando compreendidos e integrados como realidades na consciência, são capazes de corrigir eficaz e salutarmente a unilateralidade da consciência. É extremamente raro que um sonho atinja uma intensidade tal, que seu impacto derrote a consciência. Geral­mente, os sonhos são fracos e incompreensíveis demais para exercerem uma influência radical sobre a consciência. Logo, a compensação passa-se no inconsciente, sem efeito imediato. Apesar disso, produz efeito, mas um efeito indireto: a oposi­ção inconsciente, numa constante infração, vai arranjando sin­tomas e situações, que finalmente se contrapõem sem cessar às intenções conscientes. No tratamento esforçamo-nos, por con­seguinte, por compreender e respeitar, na medida do possível, os sonhos e demais manifestações do inconsciente; por um lado, para evitar a formação de uma oposição inconsciente, que, com o passar do tempo, pode tornar-se perigosa, e por outro, para utilizar, na medida do possível, o fator curativo da compensação.
Esse processo parte naturalmente do pressuposto de que o homem é capaz de atingir sua totalidade, isto é, de que pode curar-se. Menciono esse pressuposto porque existem indivíduos que, indubitavelmente, no fundo, não são inteiramente aptos para viver e se aniquilam rapidamente, quando porventura se chocam com sua totalidade. Mas, quando isso não ocorre, sua vida transcorre até idade avançada, fragmentariamente, a modo de personalidades parciais, auxiliados pelo parasitismo social ou psíquico. Para a infelicidade dos seus semelhantes, tais indivíduos não passam freqüentemente de grandes impostores, que encobrem o seu vazio mortal com uma bela apa­rência. Querer tratá-los pelo método aqui descrito seria, desde o início, uma tentativa vã. O que "ajuda" nesses casos é man­ter as aparências; pois a verdade seria insuportável ou inútil.

JUNG, "A Psicologia do inconsciente", vol. VII/1, § 186-7.

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

UM MAIS QUE TODO MAIS QUE UM

Ah, cinza manhã
de corpos sem alma...

Manhã de cheiros apagados
de incêndios controlados...

Sonhos de morte esquecidos
sonhos de amores incertos
sonhos sem vontade.

Ah, saudades
dolorosas
de quem fui.

Bandeira,
o que fazer
com a estrela possível
com a estrela alcançável?

Bandeira,
deves ter sido
outro imbecil...

(Fabio Rocha)