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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

HEROES

quando não durmo não reconheço lugar nenhum
nem a mim mesmo
sob esse sol amarelo

se sonho, porém
tiro o poder da palavra noite
e enfio no peito
com mão dourada de fogo

amar é elo sem fim

eu não sou eu
e vôo

(Fabio Rocha)

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

SONHEI COM O EMPREGO

quero é morrer deitado
no meio
do imenso feriado

dizendo tudo que calo
cantando tudo que mudo

quero é morrer lutando
no seio
do imenso feriado

(Fabio Rocha)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O SONHO, AINDA


a pantera era morte
mas era eu
não-morto
lambendo feridas
para seguir ao Norte
da palavra Outro

(Fabio Rocha)

segunda-feira, 13 de junho de 2011

DEUSA ONÍRICA

por quantas vidas te perseguirei
em sangue e glória?

passo de pássaros:
a revoada desenha tua face

te sei em sonho
te adivinho em letra

nunca inteira
nunca perfeita

(Fabio Rocha)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

SONHO OCEÂNICO

submergir no tempo
(bênção de silêncio)
sentir por perto
ondas do imenso

(Fabio Rocha)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

ROCHA

a pedra seca no plexo
pinga
sangue no chão
do deserto

luta:
uma vítima
na vitória íntima

então
a pedra maior se erguendo em ruído
do trêmulo chão de areia
sob meus pés

me erguendo em som
com a força inconfundível
da voz de Deus
me chamando de filho
pelo escrever da mão

(Fabio Rocha)

quinta-feira, 15 de julho de 2010

DO SONHO


ela era nova
fruto frágil proibido
pele tenra, doce escápula
mão imemorial vinda desde sempre
me cantou umas palavras lindas
me tocou até eu virar água
bebeu tudo
e nunca me disse seu nome

(Fabio Rocha)

sábado, 26 de junho de 2010

O SONHO

mar fundo
eu na água rasa
um navio encalha
e não afunda
graças à âncora
presa na montanha ilha
sólida rocha


mas navios naufragados devem naufragar...
(afago arfante cortando a calma da noite, quase acordando)

mar alto
outro navio vem ajudar
a afundar
corta a âncora
com outra âncora
e submerge silenciosa a nave antiga
a baleia de metal
devagar
escura
escorre azul
morre

mar isto
eu no raso
sem esperar horizontes
eu só medo do som da batida
e de tudo quanto pode me alcançar
quando ela tocar o fundo

(Fabio Rocha)

domingo, 30 de maio de 2010

MARIA CLARA

- Mas o que é que ovo?
- Ela, claro, de novo.
- Gema...

(Fabio Rocha)

OBS: Singela homenagem matinal a este blog cheio de poesia feminina.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

SILÊNCIO

Vou dormir.

Tenho 6 horas de sono
e o inconsciente me acorda
na terceira
com um grito gelado
na goela:
ela.
A resposta?

A mesma casa antiga
do cachorro todo ossos negros
ela fantasma no segundo andar
eu no primeiro.

Eu no corredor
deitado no chão como morto
como desistente
ela não diz nada
vem e tira fotos
eu não digo nada
nem abro os olhos.

Ela guarda o filme da máquina
no congelador em minha cozinha da infância
e entra em seus aposentos sombrios
(quarto da irmã?)
eu pego o filme gelado
revelo (rebelde)
e guardo.

Como se o pacto de silêncio mórbido
nos aproximasse
estamos num carro
num drive-in
eu espectro, quase inexistente
ela descontente, reclamando com amigas que chamou
"Está difícil achar alguém que não me faça mal..."
me deixa as sobras de pipoca e refrigerante sem dizer palavra
(que devolvo em silêncio, silêncio mesmo em que revelei minhas fotos)
e ela fala do vizinho desinteressante que tentou tentar
e meu peito acelera em silêncio até o despertar.

(Pai nosso que estás ao léu,
estou rimando ar com ar...)

Acordo sem entender meu silêncio
com vontade sobrehumana de perguntar simplesmente:
"Tudo bem?"
mas o trem
o tempo
o pacto
a mágoa
o livro
a ainda esperança de cura da doença que foi amar
através do não-dito (publicado)
e da distância (inventada).

Como é difícil
não estarmos mortos
e fingirmos star.

(Queria alguém
para sentar na beira da cama
contar nossa história
e chorar.)

(Fabio Rocha)

sábado, 20 de fevereiro de 2010

SEM RAIVA?!

Nada é tão
como era
então.

(Exceto talvez a paixão...)

Se a raiva passa
o medo
aumenta.

Ela ali inteira
fora da piscina
esperando
pra me lavar a mão
depois da artificial cachoeira
toda de branco
sem marchas, pais, religião
era real?
Era bom?

(Fecharam a água:
peixes morrendo no chão
raso do sonho.)

Ela ali de pé
tão grande
quanto minha ilusão
sentada
na mesa redonda
meu medo branco.

O sonho
o sono
o amor
a ira
a água
acaba
sem motivo
ou aviso.

Apanho
minha mala
branca de dor suportável
e de medo controlável
(sem raiva?!).

Aceito-a.

Olho a estrada.

É feia.

E nunca houve um estrela.

Acordo e ando.

(Fabio Rocha)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

L'AMOUR

Um cachorro preto
todo osso
tempo demais
junto
junto
eu chuto, cuspo, expulso:

- Passa! Passa!

Junto
tempo demais
junto...

Arrumo a cama
pra outros dormirem...

E o cachorro junto
de osso preto
de peso morto.

(Fabio Rocha)

sábado, 6 de fevereiro de 2010

A MORTE, O FIM, A DESPEDIDA, A TRANSITORIEDADE E O MEDO NO INCONSCIENTE DO EU LÍRICO DORMENTE (UMA PSICO-ANÁLISE VIA POESIA)

A festa acabou
na casa antiga
e enorme.

É tarde.

Pessoas demais.

Não quero ler mais nada.

Apago as luzes acesas
tranco as portas escancaradas
que é noite ainda
madrugada.

Noite.

Vozes me acompanham
e um cão em ossos negros
morto
anda comigo.

No quarto antigo
e meu
uma paixão mal acabada fala mal de mim
a amada
deitada nos braços de outro cara
feio asqueroso filha da puta burro
e deixo minha cama bem grande e minha
para transarem em cima pela noite adentro
sem dizer nada
sem dizer
nada...

Enquanto isso
uma por vir
e outra iniciada.

Mudam os nomes
e datas
(às vezes, nem isso).

Pessoas demais.

Desço as escadas
trancando a apagando
e nunca parece bastar.

Pessoas demais.

Amando?
Amando quem, caralho?
A mando de quem, amar?

Quero uma só.

Quero uma só?

Quero uma só
que não me seja faca
só lâmina
no final...

Mas sem ser fraca
não perca o brilho
do metal.

Uma
só.

As vozes de fora
me falam de alguém me chamando
perto da máquina de lavar.

É minha irmã bem casada
no chão, sem queixo, machucada
tentando se proteger do cachorro sem plumas
maldito manco morto deformado e negro.

Alguém chama
uma ambulância?

Pessoas?

Vozes de fora?

Alguém?

Do cão
do fim
eu te protejo.

(Fabio Rocha)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

PLEXO

Se me dissesses que vinhas cá dentro
minha mão em tua pegada
meu sono sem sonho perdido
tão rápido, tão preciso...

Se me dissesses que era sim possível
que era mesmo assim fantástico
eu prometo que não acreditava.

(Fabio Rocha)

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Ansioso
lembro de todos os sonhos.

Volto a dormir.

O vento vem
e bate a persiana
suja.

Balança
mas não cede.

O peito aperta.

Volto a dormir.

Almoço.
Volto a dormir.
Tarde.

O peito bate.

Dentre quatro paredes
eu sou a quinta...

Não ouço o som
da minha voz.

O peito pede mais.

Nada tem uma cor
diferente
do desprazer.

Noite.

Como demais:
mais vazio.

Só um poema.


um
poema...

Só um poema
pode me salvar.

(Fabio Rocha)

domingo, 15 de março de 2009

SALTO

de mim ao céu
uma trilha de insetos estagnados
sem visíveis teias

caminho de veias
e sedes venosas

leveza ascende:

lilás
sobre o azul

(Fabio Rocha)

terça-feira, 10 de março de 2009

CURVAS

Toda a água brava, revolta, agitada
que me amedrontava
agora está
sobre mim
e prazerosamente me mata
e refresca.

Dos infinitos rios
lambendo pedras e limos
descendo montes
cavando terras e sonhos
cismando pastos distantes...

Dos vales de silêncio
e manhãs de sol
bois ensimesmados desconhecidos
ventos do passado...

Dos carinhos
calores
e odores
da casa da vó
onde criei rios
no quintal...

De tantas cores e dores
trajetos, curvas, linhas separadas
o encontro:
amor
azul
o mar.

(Fabio Rocha)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

SONHOS DE VOAR

Chove.

É tarde
ou talvez cedo:
a verdade
é o medo
da morte.

O que arde
no canto
das asas
abertas
atônitas
despreparadas
para a solidão do céu.

O fundo
do abismo
é o mundo.

Sonhar em voar
e cair
e morrer
a toda hora
morrer um segundo
morrer a criança
que sonha e não voa
é triste.

(Fabio Rocha)

domingo, 2 de novembro de 2008

O TODO

Por muitos sonhos
do mar fugi.

Ondas gigantes me perseguiam
tubarões quase alcançavam...

Até que deito na areia.
E sinto a onda vindo
e deixo a onda vir.

Será noite ou era dia?

Estrelas ao lado,
os olhos fechados,
a onda chegando...

Paz.

Imóvel
coberto
tomado
pela imensidão
da eternidade azul.

(Fabio Rocha)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

DESEJO ORGÂNICO

na minha fazenda futura
terei área de preservação ambiental
bromélias claras e escuras
e um pé de manga no fim do quintal

na minha fazenda futura
cachorro e árvore
mulher e sol

(Fabio Rocha)