Vamos lá ver como param as modas ali pela horta mas, antes disso, se me permitem, façamos um pouco de história para que não comecem desde já a chamar-me gato vadio.
Não há, por mais que ande na ponta das patas e as sacuda com zelo, sítio seco onde pouse as minhas almofadinhas. É um desconforto dos grandes! O musgo está molhado, as pilhas de lenha estão molhadas, o telhado da capoeira escorre água…e o Bolinhas Rabicho aparece lá com ganas de me fincar aqueles dentes bem aguçados, a mim, que sou de paz e que já me queixo das articulações…
Nem os gansos têm um ar muito amistoso. Fazem uma barulheira danada que me acaba com a sesta, sempre que consigo enroscar-me dentro de um cortiço velho esquecido ao canto da oficina. Vai daí, ala para a cozinha, que está quentinha e seca, e acomodo-me no meu amigo mocho, ali mesmo em frente da lareira.
Enrosco-me. Adormeço. Estremeço. Acordo. Espreguiço-me. Volto a adormecer. E sonho. Oh, se sonho! Com o quê?! Isso não conto, que sonhos de bichano não alegram leitor humano!
Espreguiço-me muito, isso sim, para desentorpecer os músculos. Sempre finjo que sou uma fera - “Olha os meus belos caninos!” - mas não tenho tempo para fantasias porque sou um gato asseado e já me atrasei para a décima quinta sessão de lambidela do pêlo.
E é assim esta minha interessante história de uma tarde de Inverno no Monte das Gigantas. Mas o que interessa afirmar aqui é que também não sou um gato borralheiro porque não fico a malandrar por muito tempo. Assim que o sono mais urgente é satisfeito, dirijo-me ao trinco da porta, pressão da patinha e claque, claque, passem bem que vou ver dos ratos ou de um pardalito mais apardalado…
Pois...lá pacífico sou, mas sou gato!