sábado, 27 de dezembro de 2008

assim seja. ( e será)




"hoje é um novo dia de um novo tempo que começou."
essa frase sempre tão dita e repetida ao disseminar-se através da globo e da globalização, de tão dita fora banalizada, ao menos por mim, e nunca vira alvo de reflexão. nunca até a virada deste ano. é, este em especial. não tenho do que reclamar de 2008 na verdade, fora um ano de muitas experiência, aprendizagens, conhecimentos, mudanças, seletividade, entretanto não pelo melhor dos caminhos. e ao, finalmente, reconhecer e aceitar isso, não me resta alternativas a não ser mudar de caminho ou ao menos aprimora-lo, molda-lo à minha realidade. todo ano novo escolho um lema de vida: a palavra chave de 2009 será mudança. e uma mudança ligada à razão, à racionalidade e a responsabilidade. não é possivel aventurar-se sem assumir as futuras consequências, eu sabia que teria que assumí-las. entao diga ao povo que as assumo, ao mesmo tempo em que evito novas surpresas. é preciso ponderação, coisa que não tive, mas esse ano eu vivi, posso afirmar isso com certeza, vivi, me permiti, e fui feliz. é, eu fui feliz. mas o que antes me alimentava, me dava prazer, agora trás mais o mal que o bem, e quando isso ocorre simboliza a hora do fim. triste fim, mas não o de policarpo quaresma. e sim o meu. mas não há nada que não possa ser solucionado, se tomadas e seguidas as devidas providências. chega de uma vida que não me conforta nem me aquieta em nada. o que pode ser emocionante no início, torna-se cansativo e sem sentido depois. quero paz no meu coração, conhecer o amor de verdade, compartilhar com alguém os meus maiores medos, anseios, segredos e desejos, chorar ao fazer amor, ter filhos e poder construir uma familia linda. e com a vida que estava levando isso não era possivel, então é hora de focar-me ao que mais importa e priorizar a unica pessoa que pode me fazer feliz: eu mesma. é hora de cuidar de mim.


feliz ano novo pra mim, e pra você.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

misto de aguardente e água-de-flor.


Sou pessoa de dentro pra fora. Minha beleza está na minha essência e no meu caráter. Acredito em sonhos, não em utopia. Mas quando sonho, sonho alto. Estou aqui é pra viver, cair, aprender, levantar e seguir em frente. Sou isso hoje...Amanhã, já me reinventei. Reinvento-me sempre que a vida pede um pouco mais de mim. Sou complexa, sou mistura, sou mulher com cara de menina... E vice-versa. Me perco, me procuro e me acho. E quando necessário, enlouqueço e deixo rolar...Não me dôo pela metade, não sou tua meio amiga nem teu quase amor. Ou sou tudo ou sou nada. Não suporto meio termos. Sou boba, mas não sou burra. Ingênua, mas não santa.
Sou mulher de riso fácil...e choro também!

sábado, 20 de dezembro de 2008

jornal das pequenas coisas.


Na manhã de domingo, Dona Epifânia, uma senhora de 73 anos, perdeu a chave do seu porãozinho. Esfregou a testa. Chacoalhou a cabeça. Mas, tal qual um fio com mau contato, nada do que fizesse parecia ajudar a sua combalida memória. Na mesma parede, dezenas de formigas estavam separadas pelas catástrofes dos últimos instantes: uma porta que, num rangido estrondoso, abrira-se numa fenda de mais de 7 cm da escala Ritcher. Dona Epifânia, sem esperança de encontrar a chave, vê um cadarço jogado e une porta e batente. As formigas, mesmo feridas, atravessam a ponte de pano, na maior mobilização já vista. Em todos os formigueiros, a operação resgate foi transmitida ao vivo. Algumas formigas ajustavam as antenas para eliminar os chuviscos da imagem. Por fim, Dona Epifânia, sem saber de nada que acontecia no reino das formigas, afundou-se no sofá para assistir ao jornal. Das notícias grandes, é claro.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

homem de lata.


Encosto o meu dedo em sua pele, mas ela não afunda. Não é possível.
Desabotôo a sua camisa e deito a minha cabeça em seu peito, meu homem de lata.
Diante do novo segredo, eu queria chorar, mas posso enferrujá-lo.
Então, como você viveria em paz sem a sua armadura?
Sem nada entender, você se vira e vai embora.
E só então eu percebo: a sua armadura é furada, meu amor.
Nas centenas de furos sobre a armadura de lata, vão sendo aguadas todas as plantinhas ao seu redor.
Você é, na verdade, um lindo homem regador.
'
•Jornal das pequenas coisas.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

com minha dor não se brinca, já disse que não.




Depois de chorar até a noite clarear, os seus olhos incharam, pareciam duas tulipas vermelhas que não sabiam em qual jardim estavam. Mal sabia porque chorava, esqueceu até porque sofria. Todas as gotas do oceano resolveram se encontrar dentro dela? Chorou até secar por dentro. Dormiu até o sono esquecer porque existia. Sentir-se sozinha é assim? Ela não sabia. Nunca soubera o verdadeiro significado da palavra solidão. Agora ela sabe.
Mas quando acordou, pegou as duas tulipas e as colocou em um vaso com água doce. Eu mereço um jardim florido e sorrisos de amor, dia sim, outro também, ela pensou.
E mais nada.

sábado, 13 de dezembro de 2008

perpetuando a liberdade.


Hoje sonhei que podia voar.
Voei longe, onde ninguém poderia me tocar, o céu era azul e rosa com nuvens em formato de eternamente. Meu coração ia explodir, era tardezinha, o sol no horizonte e o ar frio não deixavam nada a desejar. Eu quero ir alto - Pensei - Se estou aqui posso fugir. E corri das mentiras que pensei que eram minhas, porém saiam de sua boca. Continuei voando, a garota alada...
Que lindo era, hoje vou voar de novo.
(:

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

de mansinho.


Ela passou a noite toda, entre o adormecer e o despertar, ouvindo Chico Buarque cantar no seu ouvido. Levantou-se quando colocaram uma cartinhazinha debaixo da porta:

“Se você quer ser minha namorada, você tem que me fazer um juramento, não perder esse jeitinho de falar devagarinho essas histórias de você. E de repente me fazer muito carinho e chorar bem de mansinho, sem ninguém saber porquê. E se mais do que minha namorada, você quer ser minha amada, minha amada, mas amada pra valer, os seus olhos têm que ser só dos meus olhos e os seus braços o meu ninho, no silêncio de depois. Ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.”

Ela começou a chorar copiosamente, como se algo desmanchasse dentro dela. O que desmanchou foi a carta, feita de açúcar. E o seu amor, que fora feito de soluços.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

E eu vos direi: "Amai para entendê-las."


"Ela encolheu os ombros e fez com os olhos um sinal para o céu.
-As estrelas estão aí mesmo!
Entraram no quarto de Olívia. Ela abriu as janelas.
-Não ascendas a luz. - pediu ele."

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

entre as nuvens do amor ela dormia.


A moça toca flauta enquanto ela tenta lembrar-se das virtudes esquecidas em seu coração.
A melodia vai ecoando por toda parte, desde os ouvidos até o pulmão.
De repente ela tropeça nela mesma enquanto se enternece com o som raro daquela flauta.
E a tristeza transversal que até então lhe preenchia dá lugar a uma euforia luminosa, assim sem razão de ser, mas já sendo. Como sempre.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

lágrimas de chuva.


A chuva batendo no telhado e os trovões que acordam as pessoas de sono breve a acompanham enquanto escreve. Enquanto pensa. Enquanto sente.
Quando criança, ela amava ficar na chuva pelo simples prazer de chegar em casa, tirar a roupa e tomar banho quente. Sentia uma calma plena, poucas vezes encontrada em outros momentos.
Hoje ela deveria estar lá fora, de madrugada, deixando o seu corpo e sua alma serem lavados pela chuva. Porque dentro dela também há água transbordando. Mas, essa, ninguém vê, só ela escuta.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

dica de filme.


"Eu adorava o parque de diversões.
Meu brinquedo favorito era o carrossel.
Talvez eu estivesse meio velha para isso, mas os outros brinquedos me davam medo.
Mas o carrossel, ele só dá voltas, sobe e desce.
Você não chega a parte alguma, mas sempre se sente segura.

(...)

E eu?
Eu voltei ao parque de diversões.
O único lugar onde sempre me senti segura.
Lembro que o Reverendo Bill costumava dizer:
"Em todas as situações, Deus sempre tem um plano."
Acho que ainda estou tentando descobrir que plano foi esse..."

Um crime americano, baseado no caso Baniszewski, uma história verídica.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Cadê a tampa da minha panela, o chinelo do meu pé cansado, a metade da minha laranja?


E chega! Há anos peço o príncipe e só me mandam o cavalo. Dizem que materializar os sonhos escrevendo ajuda. Então lá vai: quero transar com beijo na boca profundo, olhos nos olhos e eu te amo, quero cineminha com encosto de ombro cheiroso, casar de branco, ser carregada no colo, filhos, casinha no campo com cerquinha branca, cachorro e caseiro bacana. Quero ouvir Diana Krall numa noite chuvosa e ter de um lado um livrinho na cabeceira da cama e do outro o homem que amo. Que a gente brigue de ciúmes, porque ciúmes faz parte da paixão, e que faça as pazes rapidamente, porque paz faz parte do amor. Quero ser lembrada em horários malucos, todos os horários, pra sempre. Quero ser criança, mulher, homem, et, megera, maluca e, ainda assim, olhada com total reconhecimento de território. Quero sexo na escada e alguns hematomas e depois descanso numa cama nossa e pura. E quando eu tiver tudo isso e uma menina boba e invejosa me olhar e pensar que "aquela instituição feliz não passa de uma união solitária de aparências" vou ter pena desse coração solitário que ainda não encontrou o verdadeiro amor.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Sobre o arrepio.




Seus dedos na minha pele são arrepios. Todos os pêlos, curiosos, levantam-se para ouvir o suspiro. E, comemorando a vitória da pele sobre as palavras, acompanham seus dedos em ola, arrepiando-se, arrepiados. Seus dedos que, de tão leves, escorregam sobre minha pele, cortando-me em quatro pedaços.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

-Ela está apaixonada




- Mas eu nem mesmo a conheço.
- Oh sim, você a conhece sim.
- E desde quando?
- Desde sempre Nino, desde sempre...Nos seus sonhos.

(O Fabuloso Destino de Amélie Poulain)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

carta para o homem que morreu e um pouco de verdade viva.


Hoje eu passo quieta por você, você passa quieto por mim, e eu ainda escuto o barulho que a gente faz. E você já abalou tanto a minha vida. Que pena, agora você morreu. Mas, não morre, por favor. Seja ele, seja o homem que perde um segundo de ar quando me vê. Mas você nunca mais me olhou quase chorando, você nunca mais se emocionou, nem a mim. Você nunca mais pegou na minha mão e me fez sentir segura. Nunca mais falou a coisa mais errada do mundo e fez o mundo valer a pena. Eu treinei viver sem você, eu treinei porque você sempre achou um absurdo o tanto que eu precisava de você para estar feliz. De tanto treinar acostumei.
E agora eu só queria que ele aparecesse, o homem que vai me olhar de um jeito que vai limpar toda a sujeira, o rabisco, o nó. O homem que vai ser o pai dos meus filhos e não dos meus medos. O homem com o maior colo do mundo, para dar tempo de eu ser mulher, transar para sempre. Para dar tempo de seu ser criança, chorar para sempre. Para dar tempo de eu ser para sempre. Cansei de morrer na vida das pessoas. Por isso matei você. Antes que eu morresse de amor. Matei você. Eu sei que sou covarde. Surpreso? Eu não.




"A maquiagem tinha custado cara demais para eu ir dormir antes de borrá-la."

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

para uma menina com uma flor.


Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando.E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.


moraes, vinícius de.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

canção do amor impossível.


como não te perderia

se te amei perdidamente

se em teus lábios eu sorvia

néctar quando sorrias

se quando estavas presente

era eu que não me achava

e quando tu não estavas

eu também ficava ausente

se eras minha fantasia

elevada a poesia

se nasceste em meu poente

como não te perderia?

Antônio Cícero.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

permita-se.


Cansei de quem gosta como se gostar fosse mais uma ferramenta de marketing. Gostar aos poucos, gostar analisando, gostar duas vezes por semana, gostar até as duas e dezoito. Cansei de gente que gosta como pensa que é certo gostar. Gostar é essa besta desenfreada mesmo. E não tem pensar. E arrepia o corpo inteiro, mas você não sabe se é defesa para recuar ou atacar. Eu eu gosto de você porque gostar não faz sentido.Permita-se. Se você acha que no fundo mesmo, apesar de todas essas reuniões e palavras em inglês que só querem dizer que você não sabe o que está falando, o que importa é ter pra quem mostrar que saiu o arco-íris. Permita-se. Porque eu não quero que você tenha essa pressa ao ponto de ajudar com as próprias mãos. Eu quero que você sinta esse prazer que chega aos poucos. E mata tudo que há em volta. E explode os relógios. E chega aos poucos ainda que você ainda não saiba nem quem é pouco e nem quem é lento. Porque você morre. Se você prefere a vida quando se morre um pouco por alguém. permita-se.Eu não faço a menor idéia de como esperar você me querer. porque se eu esperar, talvez eu não te queira mais.Eu não queri ir embora e esperar o dia seguinte. porque cansei dessa gente que manda ter mais calma. E me diz que sempre tem outro dia. E me diz que eu não posso esperar nada de ninguém. E me diz que eu preciso de uma camisa de força. Se você puder sofrer comigo a loucura que é estar vivo. Se você puder passar a noite em claro comigo de tanta vontade de viver esse dia sem esperar o outro, se você puder esquecer a camisa de força e me enrroscar no seu corpo para que duas forças loucas tragam algum aquilibrio. Se você puder ser alguém de quem se espera algo, afinal, é uma grande mentira viver sozinho, permita-se. Eu só queria alguém pra vencer comigo esses dias terrivelmente chatos.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

le félicité


Um dia ela voltou. Sem falar nada se enfiou comigo embaixo do edredom, quentinha e só foi embora quando o relógio despertou rasgando o conforto. Estava frio. Durante o dia ela voltou em situações bobas como o sorriso do menino mais lindo do mundo, a bolacha de chocolate que eu lembrei que tinha na gaveta e um relatório bobinho que eu fiz e caiu nas graças do meu chefe. Ela ia e voltava, ia e voltava: como a vida, sempre linear, sempre infinita. À noite ela apareceu na porta do meu banheiro, fez tanta força que entrou mesmo com a porta fechada. Me assustei ao vê-la através box embaçado, mas ela nem aí, me mostrou mais uma vez que quem manda é ela, e portanto tem o poder de me seduzir seja quando for, no momento que eu menos espero.Meu Deus, às vezes ela some por tanto tempo que me deixa sem ar. Tenho saudade, fico louca, tenho um vazio depressivo, um buraco. Sim sou dependente pois ela me trata como mais uma, e eu odeio ser mais uma. Mas eu aprendi, finalmente, eu aprendi que ela não aparece apenas numa grande história de amor, num baita sorriso de tirar o fôlego, na falta de lucidez de uma relação cheia de paixão ou na minha conta bancária recheada de grana pra entrar numa loja de sapato e levar tudo que eu quero sem perguntar o preço. Ela também dá as caras pelo lado simples da vida. Semana passada apareceu num sorvete de iogurte e hoje apareceu numa sala de espera lotada. Tava lá, eu, esperando para abrir as pernas naquela cama da tortura e ouvir da minha ginecologista: “não, não vai doer, relaxa, é bem rapidinho”. E ela apareceu. Liguei meu celular e vi que tinha uma mensagem. Alguém tinha deixado na minha caixa postal um recado, esquisito como sempre, alegre e divertido como nunca. Ri de mim. Ri das minhas gafes. Ri de tudo. A felicidade entrou com o pé na porta e sentou ao meu lado. Eu não estava mais sozinha esperando o espéculo. Minha cara carrancuda num trânsito todo parado e ela acena no carro à frente. Sorrio de volta e aceno. Ela sorri e depois morre de vergonha e toma bronca do pai para sentar direito na cadeirinha. O dia meio cinzento, vai-não-vai e de repente ela surge amarela e esquenta a vida. Ela mora numa gaveta cheia de bobeirinhas lá em casa, que tem caixinha de música, anel de docinho, cartão fofinho de dia das mães, fotos da minha bochecha quando eu tinha cinco anos e lembranças de carinho em flores secas. Ela é virtual, está no blog que eu escrevo, nos comentários que eu leio, nos e-mails histéricos que envio e recebo.Ela é a voz quando eu lembro do meu pai dizendo que eu era a mulher mais linda do mundo, que eu parecia uma rosa quando nasci. A mulher mais linda do mundo pequeno do meu pai. A felicidade mora num mundo pequeno seu e não naquele grande que faz você se perder demais. A felicidade é simples, e quando você descobre isso ela deixa de ser uma espera e passa a ser um minuto, um segundo. E é de minutos e segundos que se faz a vida. E aí você perde menos tempo esperando e mais tempo vivendo. Entre o piegas e o chavão, é assim que ando por aí vivendo a vida intensamente sem esperar momentos intensos. Você já tentou? Já tentou não imaginar a sua felicidade na outra festa que você estaria se não estivesse nessa e encontrar a sua felicidade onde você está? Tente, pode ser numa música boba, pode ser num amigo que você não via há muito tempo. Pode ser morrendo de rir de uma noite mico, por que não? Eu sempre esperei viver uma história de cinema, ouvir cantadas de filme francês, ganhar salário de estrela, ter amigos de sitcom, corpo de capa de revista e enterro de celebridade. Ai eu lembrei que os filmes de que eu mais gosto são aqueles despretenciosos que contam a história de uma pessoa idiota como eu.

domingo, 23 de novembro de 2008

Beijos...



Que traduzem sentimentos
Que inspiram à poesia
Que marcam belos momentos
Aguçando fantasias
Beijos...
Que sussurram em seu ouvido
Que fitam os teus seios
Que deslizam em teu corpo
Te deixando em devaneios
Beijos...
Que navegam em teu suor
Que te possui em frenesi
Sugando-te o que há de melhor
Insistindo em te seduzir
Beijos...
Que invade o teu íntimo
Com a intenção de desfrutar
Desnudando a tua alma
Que te fazem delirar
Beijos...
Que brincam com sua insensatez
Descobrindo em ti a beleza
Que de dentro vem a polidez
Que de fora transparece a sutileza
Beijos...
Beijos...

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Francisco era um gozador


Nunca estive tão bem vestida, ainda que fosse o trapo do meu lençol da cama antiga. Calcei os chinelos. Segui até a varanda e tive vontade de dizer para o vizinho do prédio em frente, o prédio que sempre odiei porque toca pagode aos domingos, que eu o amava. Bom dia, vizinho! Eu amo você! Amo sua esposa, seus filhos, suas plantas, seu Corsa parcelado. Tudo. Eu amo a vida. Se bobear até o pagode. Bom dia vizinho! E segui dando bom dia às minhas amigas plantas. Bom dia à minha cachorrinha preguiçosa que me olhava sem processar porque era cedo demais pra processar. Bom dia para a água do passarinho. Para a ausência do passarinho. Para a empregada doméstica lá embaixo empurrando um carrinho de feira capenga. Bom dia capengas, seres, inanimados. Pessoas todas, me escutem, essa porra existe! O amor existe! Não era invenção de roteirista ruim! Bom dia! Dei bom dia para a cara torta do Bush no jornal e para a manga que comi inteira. Bom dia para as palavras que não terão mais acento. Bom dia para a Maria, que chegou de cara feia e logo sorriu pra minha cara desfigurada pelo amor. Caras de amor são como carrancas para espantar Marias infelizes. São tão bonitas que parecem caretas. Bom dia para os insetos que a Lolita quer pegar desesperada. Bom dia ao desespero. Tudo é bom. Tudo parece bom. Bom dia para a vida como ela sempre deveria ser. E segui com meu bom dia, mesmo quando o dia já escurecia. Dei bom dia para coisas rastejantes como meu tapete que sempre bagunça porque meu sapato prende nele e bom dia para meu tapete voador imaginário que me fez dar bom dia ao mundo todo, mesmo para aquelas pessoas que eu nem sonho que existem. Bom dia para todas essas coisas que virão e que foram e que estão. Porque quando se sente tanto a vida não importa nenhum momento solto e não importa que nomes tiverem esses momentos mas apenas toda essa força que sempre esteve aqui. Mas que só agora eu consigo pegar, amassar, apertar e dar bom dia. Bom dia! Bom dia! Bom dia força! Bom dia prolapso da válvula mitral. Eu sei que você está enlouquecido e com medo de morrer. Mas até sua quase morte merece um bom dia. E então vai dar tudo certo. E daria bom dia, hoje, para todas as lanças. Bom dia lanças maravilhosas que me dilaceraram tanto e me trouxeram até a melhor manhã da minha vida. Dou bom dia para todas as minhas cicatrizes. E abraçaria pés na bunda e beijaria caras de lado e velaria sonos de quem já me estatelou os olhos sem esperança de tranquilidade. E mostraria inteiros para quem negocia partes. Porque hoje é o dia de dar bom ao fim da dor, ao fim da vingança, ao fim da espera, ao fim da defensiva. E dar bom dia ao início da primavera, ao início da minha beleza e ao amor. Finalmente. Bom dia ao amor. E bom dia para essa risada que sai livre, solta e que eu nem percebo que é risada porque não consigo olhar pra fora da pele de tanto que é bom ficar aqui dentro. Hoje é o dia de dar bom dia a mim.


Tati Bernardi.


quinta-feira, 20 de novembro de 2008

o medo é um mal conselheiro

"seu querer fazia versos naquele dia... dia de dançar para desviar dos pingos da chuva que brotavam das nuvens dos seu rosto, dia de deixar desfalecer o tempo e no escurinho da alma sentir piscar vaga-lumes... e eram versos bons de se perder no contar da realidade em que vivia, dia que a felicidade se esquecia de passar e repouso fazia naquelas horinhas de saudades sem medo... escrevendo, era assim que se sentia... mas, no acabar dos escritos, no silenciar da ultima palavra, voltava a tristeza e seus olhos calejavam uma outra vez mais de lágrimas... e de la e de ca e de la e de ca e de la e de ca era só mesmo este o fazer do sentido da vida, que dedilhava num quetinho só, o amor que um dia teve..."

Projeto Reticere

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

já não há palavras

"Suas mãos sem querer se tocaram, eles olharam-se nos olhos por um instante e não se reconheceram. E é então que esqueço de tudo e vou olhar nos olhos de minha bem-amada como se nunca a tivesse visto antes. É ela, Deus do céu, é ela! Como a encontrei, não sei. Como chegou até aqui, não vi. Mas é ela, eu sei que é ela porque há um rastro de luz quando ela passa; e quando ela me abre os braços eu me crucifico neles banhado em lágrimas de ternura; e sei que mataria friamente quem quer que lhe causasse dano; e gostaria que morrêssemos juntos e fôssemos enterrados de mãos dadas, e nossos olhos indecomponíveis ficassem para sempre abertos mirando muito além das estrelas."



tudo bem eu querer um amor desses de cinema?

domingo, 16 de novembro de 2008

se mal há, mal não há mais.

"Vergonha ela nunca teve, sempre clara e amostra. Menina sonhadora, mulher forte. Mais menina que mulher quando o assunto são sonhos, isso é verdade. Mas a mulher, essa escancara as dores, mostra o peito machucado e procura seguir. O castelo de sonhos ruiu, talvez porque o alicerce fosse feito de nuvens, ou talvez porque a vida não seja feita de amores incondicionais. O adeus com palavras não fora dado, mas as entrelinhas falam mais alto e machucam mais. Ela que odiava ler entrelinhas, mais uma vez era posta frente a elas e seguir era o único caminho possível. Sabia ela que jamais entregaria os sonhos,fossem eles quais fossem, até porque a menina ainda tem muito o que aprender. Mas eles mudam de direção pois são como o mar, que tem suas mares e seguem. Era necessário que ela agora seguisse o seu caminho, se desvencilhasse dos pesadelos e seguisse outros mares. Serenos, pessoais, só seus..."



É, era necessário que ela agora seguisse o seu caminho...

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

da vida tudo se leva

"Nasci numa noite quente. E não fui vaginal. Gol de barriga. Já era inquieta e por mais que amasse dormir, cinco horas me bastavam. Papai tocava violão e tinha a voz grave a afinada. Sentava perto do berço e cantarolava: "meu bem, já não precisa falar comigo dengosa assim... brigas para depois, ganhar mil carinhos de mim... se eu aumento a voz você faz beicinho e chora baixinho..." Sim. Erasmo Carlos. Os olhos sempre foram curiosos e grandes. Assim, embalada pelo violão ou pela voz de papai, Morfeu me conduzia ao sonho infantil pontuado por monstros verdes parecidos com o Hulk e balões em forma de coração, onde dentro, eu voava para bem alto. Sozinha. Sempre. Nasci no verão. O calor do berço me fazia virar de quinze em quinze minutos. Morfeu me abandonava rapidamente. Qualquer buzina na rua, qualquer tosse de meu irmão, meus olhos abriam, primeiro assustados, verificando uma possível existência do monstro verde no quarto. Depois curiosa, observando a vida de madrugada, tão calada, escura, úmida e incrivelmente bela. Chorava pouco. Resmungava. A cabra que me rege é chata. Não chora. Resmunga. Mamãe levantava com olheiras que a deixavam feia, e que hoje sei, será santificada por isso. Rezava comigo. Aplicava reiki. Me dava florais. Cantava ponto de criança. "estrelinha que está no céu a brilhar..." Bernardo desmaiado feito pedra. Leo ainda se mexia, mas muito cansado não conseguia reclamar do barulho. É que dormindo, eu não vivia. Sonhar ainda não era tão fascinante. Meu inconsciente ainda não havia despertado para essa outra possibilidade de vida. As janelas abertas. O ventilador ligado. A nuca suada. "Dorme com Deus", mamãe dizia e ia embora. Mas Deus era grande demais para dormir no meu berço. Na minha mente. Com medo de Deus estar presente no quarto, elaborava os pensamentos mais esquisitos para relaxar e tentar, enfim, dormir. Dentro da barriga era Chopin que me acompanhava e eu ainda não sabia. Daí teve um dia que ouvi alguém dizer que sonhar era a capacidade de viver tudo aquilo que a gente não vivia aqui, de olhos abertos. Só que de olhos fechados. E aí que castelo sempre me intrigou. E não o trono. Mas sim as torres e os calabouços. E com a cabeça ainda de cabelos lisos me enxergava num calabouço sujo e frio. O bolero de Ravel que mamãe insistia em colocar domingo para o almoço entrava ao fundo. De repente comecei a escolher outros lugares. Escolher as pessoas. A trilha. O roteiro era meu. Eu escolhia. Eu podia escolher. Vez ou outra, coisas que eu não havia escolhido se intrometiam, mas eu não ligava. Logo haveriam de sumir e sumiam. Não havia espaço para elas. E com alguns poucos anos de existência, numa noite de verão, aprendi a dirigir a melhor novela da vida. A minha."



na terapia de hoje discuti como é totalmente incoerente o fato de que em determinados momentos de nossas vidas depositamos toda esperança de felicidade em uma única pessoa. e isso que hoje me vitimiza corroendo e aflingindo, já foi por mim pensado. já depositei sim tamanha responsabilidade em alguns seres ao decorrer desse longo trajeto que nos acostumamos a chamar de vida. e é incrível perceber o poder que elas detiveram sobre mim, podendo até mesmo decidir a qualidade diária. um sorriso era sinal verde, sinônimo de que aquele dia seria bom. já indiferença ou discussões eram sinal vermelho: pare o mundo que eu quero descer. amarelo? vermelho disfarçado, pois é nesses momento que o copo está sempre metade vazio, nunca metade cheio. mas o mais incrível de toda essa jornada é o poder de superação e mudança do ser humano, já que hoje eu posso ver tudo com clareza. foi hoje inclusive, que ao olhar o espelho eu vi a única pessoa capaz de me fazer feliz, eu mesma.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

mon inconstance.

"Eu nunca aceitei a simplicidade do sentimento. Eu sempre quis entender de onde vinha tanta loucura, tanta emoção. Eu nunca respeitei sua banalidade, nunca entendi como pude ser tão escrava de uma vida que não me dizia nada, não me aquietava em nada, não me preenchia, não me planejava, não me findava. Nós éramos sem começo, sem meio, sem fim, sem solução, sem motivo.
Não sinto saudades do seu amor, ele nunca existiu, nem sei que cara ele teria, nem sei que cheiro ele teria. Não existiu morte para o que nunca nasceu.
Sinto falta da perdição involuntária que era congelar na sua presença tão insignificante. Era a vida se mostrando mais poderosa do que eu e minhas listas de certo e errado. Era a natureza me provando ser mais óbvia do que todas as minhas crenças. Eu não mandava no que sentia por você, eu não aceitava, não queria e, ainda assim, era inundada diariamente por uma vida trezentas vezes maior que a minha. E isso era lindo. Você era lindo."



um dia alguem tornou famosa a frase "quando voce acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas". depois de tão repetidas, normalmente essas frases perdem a poesia e se tornam mais um clichê. porem, entretando, todavia, essa frase hoje tem um significado especial pra mim. acho que por não estar naqueles dias em que Deus me tira a poesia das coisas, e ao olhar pedra, vejo pedra mesmo.
hoje essa frase reflete bem o que se passa aqui por dentro, não que eu já tenha encontrado alguma vez todas as respostas, nem isso eu um dia logrei. a questão agora são as novas perguntas que surgem, em alta velocidade, são tantas, de tantas cores, tipos e cheiros que eu mesma vou me tranformando em uma. daquelas do tipo "o que garante que o sol vai nascer amanha?" eu não saberia responder. e nem você.

-Sabe a garota do copo d'gua?



- Sei.
- Se parece distante, talvez seja porque está pensando em alguém.
- Em alguém do quadro?
- Não, um garoto com quem cruzou em algum lugar, e sentiu que eram parecidos.
- Em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente que criar laços com os que estão presentes.
- Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.
- E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?
(O Fabuloso Destino de Amélie Poulain)