domingo, 29 de dezembro de 2013



 carreguei de amores na fachada

minha casa de tempo sucumbido

clarice por aqui foi um ruído


a vida em dezembro é quase nada."


RR

A-lon-ga-men-to

Alonga a mente

Até tocares o inatingível

Ah...

As costas?

Alonga as asas

Até tocares a amplidão

Do impossível

Alonga o querer até alcançar

Seus sonhos perdidos de menino.



Lisa Köe


Um novo livro

Em páginas viradas

Linhas virgens


No breve prefácio

Prenúncio de boas novas.



Lisa Köe


Brinde a Vida

Tempo alma não tem fim

Vida jamais finda


O conceito do velho

Morre trigo nasce pão.



Lisa Köe

Adoro Billie.



Eu vi você á beira de um rio

Garimpando nas águas (arte)

Pedras preciosas, pepitas escolhidas

Selecionadas pelo teu olhar

Pálpebras abertas da sua alma

Sensível

Trazes ao nosso tato, contato

Alegria de viver, amar e sonhar.

Arte, tesouro guardado que arde

A(viva) chama que ilumina nosso caminhar.


Lisa Köe

Um toque


O escritor para viver da sua arte tem que ser artista duas vezes. Conheço um poeta que escreve suas poesias em papeis imaginários e tenta vende-las, tem também o escritor que se pinta de palhaço e aprendeu malabares para vender seu livro, verdade que sua performance sem palco é superior a sua literatura. Eu fui agraciado pelo dom da oratória, creio ser de fato um contador de historias, escrevo a duras penas para não perdê-las, sou criativo, mas fraco de memória. seja qual for seu propósito, não carregue sua literatura nas costas, poderá ficar arqueado, esse ideal é pesado demais!

Damásio 
“por que se preocupar tanto com o vinco

se a parte que tocará o seu corpo é sempre o avesso?”

(luci collin)

U F C

Felipe Hirsch


ufc não é esporte. esporte não é arte. o que aproxima o esporte da arte é sua filosofia. a luta, mesmo livre, pode conter toneladas de filosofia. não dessa maneira. em cassinos, tvs abertas, com bilhões contratuais. isso é um circo fundado em violência e estupidez (a nossa). nunca tinha visto, mas é pior do que eu imaginava. e sem charme. se, pelo menos, acabasse em sexo, seria mais animal. não precisa ser esporte pra existir. muito menos arte ou arte marcial. qualquer coisa se inventa e serve. quer assistir esses lesados milionários? quer presentear seu filho com um gta? terá sempre alguém pra te vender isso.


The Golden Age


1868

Você quer um ano novo diferente e de muita paz?



Se você quer um ano novo diferente e de muita paz, fique, durante todos os dias, somente, com as qualidades, com as virtudes e com as coisas boas de todas as pessoas. Feche os olhos, os ouvidos e não comente o lado negativo de ninguém. Infelizmente, dá-se muito valor ao lado podre e decadente do cada pessoa. Um ano novo diferente e de muita paz se constrói com o lado bom e positivo de todo ser humano.



Roberto Pelegrino – escritor.




Também se trabalha nas férias, mas a rotina de cozinhar, lavar e limpar a casa e bem mais agradável do que na cidade. Além do mar, entre uma e outra atividade, ver uma revoada de andorinhas, o gato brincando com uma folha voando ao vento. Diferente dos anos anteriores, o sentimento de paz e imenso. Apesar dos problemas. Apesar de minhas imperfeições. Estar junto da natureza e uma experiência de maior compreensão do que significa a vida. O pequeno se torna grande. Não e preciso temer a morte. Entendo porque os índios vivem em paz e porque conviver com eles e os caboclos acaba se tornando uma experiência transcendente. Amor não e paixão, nem romance. E respeito. Não sei porque vivemos dentro de prisões nas cidades. Esquecemos de deus, o deus primitivo, não o das igrejas, E o que inspira e conspira. Entretanto e impossível deter a marcha do progresso. Será que 2014 será o início da construção de minha pequena aldeia?

Marilia Kubota


De copo vazio


Ao gosto que falta

embriago os ossos

sob densa camada natal

glória e desepero

se sou eu ainda aqui

olhe uma manhã

eu não encaixo

insiste o tempo e a vontade alheia

urra ao gosto que não sou mais

chega o exausto pensamento

tudo agora recém perdido

o que havia antes que falta agora?


é desespero no lugar do sonho


Redson Vitorino em Petrópolis

sábado, 28 de dezembro de 2013


RELATO


DAa paisagem da sombra

não te direi mais nada.


Percorre-se.


Em cada canto

um abismo.


E entre o pasmo

e o riso


caem pessoas

mortas.



Yvette Centeno

Trova do Vento que Passa

Manuel Alegre



Pergunto ao vento que passa

notícias do meu país

e o vento cala a desgraça

o vento nada me diz.


Pergunto aos rios que levam

tanto sonho à flor das águas

e os rios não me sossegam

levam sonhos deixam mágoas.


Ler mais:


http://www.portaldaliteratura.com/poemas.php?id=1354


A RUBRICA DO INVENTOR

Paulo de Toledo


a vida sumiu do mapa

só resta na linha de fronteira a baba

dessa língua morta

que não tem nem linha onde cair torta





Retorno



chegar de viagem

entrar sem vacilo pela porta da frente

deitar a bagagem na sala

percorrer a casa

cômodo por cômodo

de canto a canto

e concluir

aqui é o paraíso



*líria porto

a canção do camelo


desse deserto conheço cada grão de areia

à noite me segue sempre a mesma estrela

você é meu oásis e minha tâmara

rara como brisa em flor de âmbar


estou vivo dentro de uma natureza morta

não reconheço minhas próprias pegadas

nem a impressão de minhas passadas passadas

atalhos que me trarão de volta


do alto, você chamusca o chão que eu piso

minha sombra é uma nuvem de gafanhotos

por esse mar arenoso eu deslizo


a sede dos meus cantis rotos

bebe a areia que virou vidro

e eu blatero ao sol meus perdigotos!



édson de Vulcanis & marcos prado

anjo da morte

a morte é o último mistério da vida

quando você morre e não esquece de deitar

vira uma forma nebulosa na subida

que vive suspensa em qualquer lugar


além-túmulo, existirá vida possível?

zumbem como moscas respostas amorfas

tem muita gente que ainda crê no incrível

dormem acordadas, sonham consigo, levantam mortas


assombrado de estar vivo

a morte é um estado de espírito

sou o ser que quer ser redivivo

sozinho, morto, morto, morto, não consigo



édson de vulcanis & marcos prado



Ade Scndlr

http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2013/12/max-oravin.html



"quando ainda morávamos na pedra

na pedra como fazem os corais

esparramando-se no mar azul aéreo

com as próprias mãos formando o cérebro

até que a lama do cérebro derramou-se

e confluíram em canto

os neurônios sob a pele"



O poeta austríaco Max Oravin na modo de usar.


Antes que o Mal de Alzheimer roubasse toda sua memoria, tratou de guardar numa caixa de sapato as melhores lembranças.


Ao ouvir a sirene, o afro-brasileiro ficou esperto, saiu correndo, bateu o cartão e foi embora. Não ia fazer horas extras naquele dia.


Filha da puta choroso! Só enxuga as lágrimas quando sua mãe volta para casa de madrugada.



JDamasio/ NUM PISCAR DE OLHOS /2014



GORDURA LOCALIZADA

Da "Lira dos Cinquenta e Um Aninhos":


GORDURA LOCALIZADA


Enfim, o sobrepeso!


Receitou-me a dieta da lua

e uns abomináveis

abdominais.


(À lua,

sei uivar como um lobo.)


O heroísmo nosso de cada dia:

sonhar horizontes

numa

esteira rolante.


“Meus avós rasgaram

mouros,

cruzaram mares...”


Mas você corre, Marcelo!

(Marcelo,

para onde?)

Marcelo Sandmann

RELATO


DAa paisagem da sombra

não te direi mais nada.


Percorre-se.


Em cada canto

um abismo.


E entre o pasmo

e o riso


caem pessoas

mortas.


Yvette Centeno
Adriana Zapparoli

" entre passos e lembranças, há ancas avessas, ascos de histórias tantas, e belezas secundinas. na ira de tanto pranto, há talco de formigas, caprichos em estâncias, por tudo aquilo que te regurgita.e, ainda que se veja nessas entranhas, no fluxo da testosterona,em duas baratas em baixo da cama, nos litros de espermicidas,há sempre sanhas de esperanças ...como são os ácaros que se aglutinam na taça de gelatina, na fumaça da cigarrilha e na quirela dos pintainhos. é primavera ... "


-- fragmento de minha plaquete em edição bilingue FLOR DE LÍRIO

(Lumme Editor, 2012 S.P)

quando eu nascesse

eu te diria

quando eu crescesse

eu te olhava

quando eu empedrasse

eu duraria

quando eu derretesse

eu te amava."


RR

ALGOL



Primeiro pegarei

nas tuas mãos

procurando os sinais

de difícil leitura:

cefeidas

supernovas

planetas exteriores

em que pulsa

a memória

em que o destino

quebra

e a morte se introduz

como estrutura.


Yvette Centeno(1940) poeta, ensaísta e tradutora portuguesa.
Fonte : Cláudio Daniel

ROSAS DE SAROM


Toma posse dos frutos do teu amor

ainda na tenra idade, como quem colhe

as rosas que primeiro desabrocharam

na orla do teu jardim...


Toma posse dos frutos da esperança

como o fazem os jardineiros de Sarom

que aguardam a floração das rosas

entre as sarças do Hebrom...


Toma posse dos frutos de teus sonhos

ainda que estejam verdes, como as aves

retomam entre os ciprestes do deserto

o seu ninho de esmeraldas...


Toma posse dos frutos de teu perdão

antes que seja tarde, como os pássaros

que reconstroem seu último refúgio

entre as pedras atiradas...


Toma posse de tuas ocasiões perdidas

mesmo que nunca reencontradas

como o fazem os lírios dos campos

que não precisam de nada...


Toma posse de teus ingênuos devaneios

como as rosas de Sarom o resplendor

e dos botões-de-ouro de teus seios

nas dunas do teu formoso amor!



Afonso Estebanez


Cogito


eu sou como eu sou

pronome

pessoal intransferível

do homem que iniciei

na medida do impossível


eu sou como eu sou

agora

sem grandes segredos dantes

sem novos secretos dentes

nesta hora


eu sou como eu sou

presente

desferrolhado indecente

feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou

vidente

e vivo tranqüilamente

todas as horas do fim.


- Torquato Neto, em "Os cem melhores poemas brasileiros do século", [seleção e organização Ítalo Moriconi]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 269.



sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Nydia Bonetti


dizia da vida regida pelo acaso

até os cães (e as coisas)

submetidos à sorte

a proferir sentenças – de sim

de não / quase sempre de não

quase nunca. Sim
não sei costurar o invisível

a cada crisálida

rompida antes do tempo

borboletas morrem

em minhas mãos



Vasco Cavalcante



sobre o silêncio, não há nada.. à luz de um poema, sob silêncio, mu(n)do.

Rio Amazonas.1966


O armário tomado


12 de fevereiro de 2013 às 09:40


Por Susan Blum


Il dépend de celui qui passe

Que je sois tombe ou trésor

Que je parle ou me taise

Ceci ne tient qu'à toi

Ami n'entre pas sans désir*



Começou com um. Um só. Um apenas.... não é assim que muitas coisas começam? Estava passando pelo centro e resolveu entrar em uma loja quando um homem o ofereceu. Quando o viu, (o achou bonito e) não resistiu à curiosidade...


Sabia que os pais não queriam isso em casa, mas a paixão já o dominava. Comprou. Sofregamente o abraçou, sentindo-o quase que a vibrar em seus braços, mas podia ser a sua própria vibração refletindo nele.

Chegou em casa, com ele escondido dentro do casaco, pois seus pais – que ele considerava antiquados – achavam que isso trazia doenças e dependências, podendo até levar à loucura.


Entrando rapidamente no quarto logo trancou a porta. Colocou-o em cima da cama e ficou observando-o e acariciando-o por um tempo. Depois procurou um local adequado onde pudesse guardá-lo. O armário! Sabia que a mãe nunca mexia em seu armário, pois ela tinha o hábito de deixar a roupa lavada e passada em cima de sua cama para ele mesmo guardá-la. Disciplina, dizia ela. Ajeitou uma prateleira e lá o colocou, com cuidado.


Sentia um carinho estranho por ele. Sempre que estava a sós no quarto, com a porta bem trancada para prevenir surpresas, o pegava docemente. Quando o apartamento estava vazio, pois seus pais saíam muito ou até viajavam, o levava para a varanda, ou para o sofá da sala, e até mesmo dormia com ele em sua cama.


Sempre retornava à loja em que o homem lhe oferecera. E o homem continuava a oferecer outros, sempre recusados, com medo de “ofender” ou “magoar” ao primeiro (como se fosse possível a ele compreender algo tão complexo!).


Porém um dia o homem lhe mostrou outro que fez a paixão transbordar de novo. Não conseguiu resistir. Comprou. O segundo fazia companhia ao primeiro no armário. Chamava a um de Allan e ao outro de Julio. “Hoje vou dormir com o Julio” e deixava o Allan em sua prateleira. Às vezes os dois iam juntos lhe fazer companhia no leito.


O problema – não é de praxe aparecer problemas? – é que ele descobriu que era de se apaixonar facilmente, pois um terceiro, um quarto e um quinto foram se seguindo na fila. Até que um dia percebeu que o armário estava lotado, com as gavetas e prateleiras entupidas deles, amontoados uns em cima dos outros. A mãe estranhava ele se desfazer de tanta roupa ainda boa, doando aos pobres. Era uma tentativa de arranjar mais espaço para eles.


Um dia, trazendo o quingentésimo nonagésimo nono, viu que não caberia mais no armário. Chamou a irmã para seu quarto, trancou a porta e mostrou a ela o armário entupido deles. Ela imediatamente se apaixonou por alguns e disse que cederia parte de seu armário para eles.


Os armários de ambos foram sendo tomados por esses seres incríveis. Como os coelhinhos vomitados daquele conto de Cortázar que eles tinham lido várias e várias vezes. E, tal qual esses animais, eles foram se proliferando. Isso de tal forma que todos os armários possíveis da casa ficaram tomados.


Para que não acabassem por expulsar os donos, ele acabou comprando o apartamento do lado, junto com a irmã, para instalá-los. Dessa vez, como o imóvel era deles, eles ficavam esparramados pelos móveis, amontoados pelos cantos, jogados uns sobre outros, empilhados nas mesas e poltronas, até soltos pelo chão.

Porém eles continuaram se multiplicando e agora ameaçam sair do apartamento e tomar o prédio.




*Depende daqueles que entram/ Que eu me torne tumba ou tesouro/Que fale ou fique em silêncio./Você sozinho deve decidir./ Amigo, não entre senão cheio de desejo. Paul Valéry, fachada do Musée de l’Homme, em Paris.
Luiz Felipe Leprevost



no dia 23 fui a uma senhora clarividente, ela me falou, a mim que sou entre o cético e o crente, coisas espantosas. se cumprirem, algumas delas, estão de acordo com o meu desejo consciente. o mistério do que será o futuro, no entanto, permanece. ter ido a uma clarividente e por mais fé que eu deposite no que ela me disse, aumenta o espaço da dúvida sobre o que anseio pra minha vida. nada no mundo é uma resposta, apesar de eu ter sentido algo de muito verdadeiro no poder desta senhora.
Nydia Bonetti



cães não se abraçam

quando encontram um osso

na rua

os seres

deveriam se abraçar

quando se encontram

a rosa

deveria cantar

mas silencia

[enquanto se curva

à espera da chuva]

as maritacas pousam

nos postes

aos pares

mas estão sós

[estamos]

árvores rareiam

— desde sempre ímpares

e tentam


ainda — abraçar o céu


Canto VI

de Mara Paulina Arruda

A mãe pegou a chaleira, a cuia de chimarrão e gritou: Oh Bento vem buscar o teu presente! Bento todo cheio de limo veio que veio se desdobrando em dois. Era o seu aniversário. Abriu o presente com a boca nas orelhas. Comeu uma fatia de bolo, duas... alguns docinhos... até ficar saciado. Vestiu o presente e contou que tava contrariada com um beltrano que lhe encheu de lixo e então por causa disso fez uma coisa importante, (pelo menos pra ele) que disse pra nós: Num dia eu roubei uma frase desse beltrano ai. Se ele viu não disse nada, nem tium. Nem olhou; nada. E continuou nadando nas suas palavras, tomado pela literatura, completamente nos braços de letras dela. A frase seguiu na companhia de outras sendo minha sem ser; bem vinda às vezes e, em outras, não. Toda vez que vejo esse beltrano fico rubro em pensar que dele roubei três de sua lavra. Mas também bem feito pra ele que fica fazendo com a lua os teretetes. A mãe que era exigente disse: Não acredito! Foi naquele dia quando a lua ainda estava alta? Mas a gente só ouvia os passarinhos, o galo cantando, os cachorros acuando... Eu não ensinei isso pra você! Juntou a chaleira, a cuia de chimarrão, olhou para o Bento que ficara xururú, batendo no peito, se contorcendo nos lados e disse: Bento junte a sujeira que você fez! Ele respondeu: xá comigo! Levantou-se, pegou a vassoura, varreu tudo, calçou os sapatos devagarzinho e saiu assobiando. Pegou carona com o primeiro carro que passou por ali, dizendo pro motorista: na minha casa deu problema. O motorista disse: fique frio! As famílias são assim. Eu também já roubei um complexo léxico. Não é o fim do mundo. Isso acontece. Bento ficou então pensando com os seus botões: nessa vida só se vê gatuno!


O motorista fechou o álbum. Guardou as fotografias de Bento no limo da vida. Pensou um pouco e na boléia do seu caminhão seguiu.

Misantropa




Tempestade à vista. Vento abissal.

Recolher as roupas do varal.


Penetrar a gruta de cristal

Onde a voz de Deus ecoa.


Incenso. Cantata de Bach.

Equilíbrio = Solidão total.



Bárbara Lia


Leonarda Glück


Fim de ano tem um Q de flecha na barriga, de cuspe cuspido pra cima, de sol em Curitiba, o tanto que fica eu não sei, mas eu sei do quanto que vai. Fim de ano é mescla torta de pesadelo com esperança, boas novas e velhas más, é a viagem corrida, as meias que esquecemos de pôr nas malas, as com alça e as sem. Fim de ano tem gosto de fios de ovos, frutas e ideias cristalizadas, nem todas doces, nem só de salmão vive o sashimi, nem só de dentes vive a boca. Fim de ano é um feriado promíscuo tentando apaziguar a linha quente do horizonte, onde o astro rei morre toda vez só de tentar nascer, é tempo de chuva morna e fina malparada na língua, é tempo de baile noturno, de sorvete verde, uvas chupadas e pulinhos mil nas águas revoltas do mar. É tempo de trovoada e de dizer eu te amo no meio dos relâmpagos, a vela acesa, o cheiro das árvores, a família embrutecida, a mesa posta e os sorrisos planejados. Fim de ano tem cara de ritual vespertino, as marionetes que sangraram o ano inteiro, o estofo que a gente perdeu na estrada junto com o brio, o pó, a descida e a neve. Fim de ano é o começo dum outro, mais novo — um número a mais —, um amigo a mais, um cavalo a mais para montar.



E é nesse cavalo novo, preto de fogo, que eu vou encaixar as ancas para o meu furibundo trottoir!
Lina Faria


Nunca acreditei em filosofias de guerra, em ciladas de inimigos.

Em ‘quebrar as pernas’ de alguém.

Fico mal impressionadíssima com tais ideias e declarações.

Não acredito em quem tem estratégia de guerra.

Acredito na expontaneidade.

No respeito aos sentimentos alheios e no pensar nunca fazer aos outros o que não queremos que façam a nós.

O resto? O resto é consequência do que fazemos.

O que assusta é quando a pessoa, ou muito ingênua, ou muito cínica, finge que não sabe o que acontece.


Sei...


beira do rio



Isso que te fere

Isso que te vara

É a verdade na vera

É a garra da tua própria fera

Escondida debaixo do sofá da sala


Isso que te varre

Isso que te vira

É a vontade da fúria

É o ouriço guardado na caixa

De vidro que esqueceste na maré baixa


Isso que te persegue pela madrugada

Essas sombras que ziguezagueiam na vista

Essa pista de fuga e partida, esse estrondo

É o som que escutas batendo em tua porta fechada


Isso que revolve a tua pasmaceira

Isso que te pesa na parte esquerda da face

Isso que se entranha em teu gesto e maneira

É a terceira beira do rio que não atravessaste


[Marco Polo Guimarães]


Ricardo Pozzo


Demo

Kra


C.I.A.
Gloria Kirinus


Quando penso forte as coisas acontecem. Não é a primeira vez que meus desejos são cumpridos... Ontem pedi logo de manhãzinha (que é a hora em que os pedidos ganham mais efeito): quero o calor de Jequié (Bahia) em Curitiba. Queridos amigos e leitores que moram na minha cidade, me digam, por favor, estou mentindo? O calor de Jequié chegou em Curitiba mesmo! Feliz, com as respostas do universo, amanhã pedirei o mar pertinho do meu bairro...


Ade Scndlr


Trechinho do livro que eu estou traduzindo:


"Após obterem sucesso no exame, os filósofos eram obrigados, por contrato, a passar cinco anos lencionando em liceus antes de poderem desenvolver uma carreira universitária: Bergson lecionou em escolas em Angers e Clermont-Ferrand, Sartre, em Le Havre, Deleuze, em Amiens e Orléans. Ao mandar os melhores e mais brilhantes filósofos para lecionar em escolas em todo o país, a "agrégation" levava ideias filosóficas atuais até uma ampla comunidade intelectual. Derrida, por exemplo, ao lecionar num liceu em Le Mans, de 1959 a 1960, apresentou seus alunos a Merleau-Ponty, Heidegger, Nietzsche, Freud e Lévi-Strauss."



Até que a morte nos separe...

Adriana Zapparoli

Até que a morte nos separe...


Eu tinha 16 anos, e estava no antigo colegial (atual ensino médio), quando eu me decidi pela área e pelo curso de graduação que seguiria e atuaria na vida profissional. Iniciei a graduação com 17 anos ... (faz algum tempo isso). Depois disso, eu optei pela carreira acadêmica, e terminei o ultimo pós-doutoramento em 2011... Mesmo passado os anos eu nunca tive dúvida sobre minha escolha e, ainda hoje, eu me surpreendo, eu me admiro, eu me envolvo com as coisas mais simples dessa área ... [é poético isso...] Eu tive a certeza desse amor. Então, nesse final ano, eu resolvi renovar os votos de nossas bodas com um símbolo: um novo anel de formatura. Uma homenagem a esse casamento ideal que deu, dá e dará muito certo

Lendas do Bosque Alemão de Curitiba


       

O Bosque Alemão, localizado no bairro Vista Alegre, na cidade de Curitiba tem muitas lendas urbanas, leremos algumas abaixo:

Ingridy da Chupeta:

No século dezenove, perto da fazenda da família Schaffer, morava Abigail, uma viúva com seus dois filhos: Ingridy de cinco anos, e Raul de doze anos.

Ingridy era uma menina sonhadora, seu conto de fadas favorito era João e Maria e o seu maior sonho era conhecer a casa da bruxa desta história. Mas, o que deixava Abigail preocupada era o fato de Ingridy ter cinco anos de idade e ainda não ter largado a chupeta. Esta mãe já tentou de tudo: colocou pimenta na borracha da chupeta e jogou algumas chupetas fora. Porém, sempre aparecia alguém para dar uma chupeta de presente para a menina.

Um certo dia, Raul e Ingridy foram passear no bosque da fazenda Schaffer. Mas, de repente, o menino arrancou a chupeta da boca da irmã e jogou para dentro da floresta. Assim, a garota correu atrás do objeto e acabou se perdendo. Raul gritou pelo nome da irmã e não teve resposta. Então, ele conversou sobre a situação da garota com a mãe. Deste jeito, a mulher reuniu todos os homens da região que foram no bosque atrás da menina. Porém, ninguém , conseguiu achar a pequena.

Desta maneira, surgiu a lenda de que Ingridy morreu dentro daquele bosque e virou um fantasma que protege as crianças e os animais da região.

Um ano depois de seu desaparecimento, um casal estava passando junto com sua filha, em uma carroça na estrada daquele bosque. Mas, o problema é que a menina não parava de chorar. De repente, surgiu uma garota na estrada que disse:

- Meu nome é Ingridy e eu tenho a solução para a choradeira da filha de vocês!

Após estas palavras, ela deu uma chupeta nova para a criança, que naquele mesmo instante parou de chorar.

Assim, Ingridy desapareceu na frente do casal e deste jeito surgiu a Lenda da Ingridy da Chupeta.

Anos se passaram e em 1996, naquele mesmo local, foi inaugurado O Bosque Alemão. Lá, montaram uma trilha batizada de João e Maria que imita o caminho das crianças deste conto infantil. Também construíram uma biblioteca, batizada de Casa do Conto, onde professoras fantasiadas de bruxas contam histórias e fazem brincadeiras com as crianças.


Vitória e Ingridy da Chupeta:

                                                                          

No final dos anos 90, minha amiga Patrícia resolveu levar sua filha Vitória na Casa de Contos. Pois, ela ouviu falar que as bruxinhas estavam fazendo uma atividade para que as crianças jogassem as suas chupetas fora, já que Vitória estava com cinco anos de idade e não queria largar a sua.

Quando chegaram nesta biblioteca do bosque, a feiticeira contou a lenda da Maria da Chupeta, que é a história de uma “monstra” que ataca as crianças grandes que ainda usam chupeta. Segundo este conto, para evitar o ataque da Maria da Chupeta, as crianças precisam jogar a chupeta num saco mágico e nunca mais usar um objeto destes.

Deste jeito, uma sacola colorida foi passando e as crianças foram deixando as chupetas nela, inclusive Vitória. Naquele mesmo instante, esta garota ouviu uma contadora de histórias falando para a outra:

- Estas chupetas velhas ficarão no depósito, atrás da biblioteca, para serem incineradas depois.

Vitória viu que as mulheres colocaram a sacola neste depósito, que estava aberto. De repente, esta menina avistou uma outra garota, com roupas antigas, pegando a sacola com chupetas. Assim, a estranha criatura olhou para Vitória, fez sinal de silêncio, pegou a sacola com as chupetas e evaporou-se com elas.

Quando Vitória chegou a sua residência, foi para seu quarto dormir. Mas, de repente, apareceu a mesma menina que roubou a sacola das chupetas da Casa dos Contos. Então, a entidade disse:

- Meu nome é Ingridy, protejo as crianças que curtem usar chupeta e que visitam o Bosque Alemão.

Após falar isto, este espírito devolveu a chupeta de Vitória e aconselhou:

- Por favor, use esta sua chupeta somente quando sua mãe não tiver olhando.


Teo e o Cão Perdido No Bosque:


Meu amigo Teo costuma fazer caminhadas domingueiras em vários parques de Curitiba. Um certo dia, ele entrou dentro da Casa dos Contos e conheceu uma menina chamada Érika, que entregou sua chupeta para a contadora de histórias. Então, o moço, ao ver esta atitude deu uma bolacha para a garota. Teo também ofereceu uma bolacha para uma menina chamada Bárbara que estava naquela biblioteca.

Então,esta garota pegou o biscoito e entrou na floresta, pois viu o vulto de uma outra garota com roupas antigas dentro deste bosque. Lá, Bárbara encontrou um cachorro abandonado,  que estava amarrado numa árvore. Sua mãe correu atrás, preocupada.

Bárbara, ao ver que o cachorro estava faminto, deu a bolacha para o cão. Mas, o pobre estava quase se afogando com o alimento, quando, de repente, a mãe da garota deu tapinhas no bicho e assim ele se salvou.

Deste jeito, Teo e seus amigos chegaram ao local e levaram o animal ao veterinário.



Luciana do Rocio Mallon

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013


e quando a mão
que também escreve
desmanchar
não se irá pensar
em consertar a escrita
cada coisa a seu tempo
contemplaremos o necessário
aprenderemos a consertar
vamos consertar a mão.

Edson Falcão


Açudes

As bocas desses homens
aos açudes secos do sertão se assemelham
os rostos que se quebram como o chão pisado
suas bocas murchas e as rachaduras de suas mãos
ao solo seco se parecem
há quem pense que já nasceram com vocação para solo
com vocação para chão.

Edson Falcão


No princípio era o verbo
uma vaga voz sem dono
vagando pela via láctea

depois veio o sujeito
e junto com ele todos
os erros de concordância.

Gregório Duvivier
in Ligue os Pontos

Existência

Se a gente se escondesse
atrás do relógio do tempo,
a vida não seria feita de
momentos
e não haveria a perversidade
das horas a escoar a nossa
vida
pelos raros da existência.

Luiz Carlos Varella Pratti
De Mara Paulina Arruda


Anisestrelada encontrou-se com Diva na esquina do bairro. Sábado de manhã. Dia de contar os acontecimentos da semana. Alegres cumprimentaram-se. Diva disse que iria chover, com certeza! E essa certeza vinha da dor em suas pernas. Anisestrelada falou da indignação com os larápios:

-Já não dá mais de estender as roupas no varal; é só estender, agente virar as costas e desaparecem as roupas num segundo: mámeudeusdocéu aonde é que vamo pará?


E virou-se ao apontar a plantação bonita de soja de seu Pedro.


-Mávamotocando...andiamo, qüi siámo proprietários é?!


Diva também estava preocupada com o preço dos mantimentos no mercado e com a velocidade do tempo.


-Imagine, que o tempo voou e hoje é dia 25. Ainda ontem o ano estava começando a dar os primeiros passos...


E assim conversando foram trazendo as lembranças quando a cidade era uma vila, pequenos quadros pendurados na sala de suas memórias: a família reunida, as férias na beira do rio, os aniversários das crianças. Quando se deram conta no relógio eram 11.30 minutos.


-Mádiosanto! ainda tenho que ajudá na lavoura...

Eu não disse, perguntou Diva:


-O tempo corre, a vida passa e nois quando nos encontramo perdemo a hora...

EM BUSCA DE UM VERDADEIRO SENTIDO PARA AS COISAS (I)



Para quem sobreviveu a mais de trinta e oito natais como eu e provável que pouco reste daquele sentimento que nutríamos ao longo de um ano inteiro, sobretudo em nossa primeira infância. Refiro-me aquela expectativa introjetada em nossas consciências por nossos pais e estimulada pelos meios de comunicação, de que, no alvorecer daquele dia mágico de 25 de dezembro, um legítimo representante dessa dimensão intangível que paira em algum ponto indefinido de nossas realidades, faria sua aparição entre nós. E claro que falo do "bom velhinho", o qual traria consigo, alem dos presentes solicitados, um cadinho de mistério para iluminar nossa existência.


Crescer em meio a esse contexto foi para mim, e, acredito, para toda a geração que me acompanhou um processo progressivo de ruptura. Primeiro, desmistificando de uma vez por todas essa encenação da qual desde muito cedo desconfiavamos estar sendo vitimas (recordo de primos mais velhos, tios e/ou vizinhos fantasiados de Papai Noel, cujo rosto nos era familiar, mas que, por bom senso, consentimento ou mesmo falta de coragem, hesitavamos desmascarar). Segundo, acatando a prerrogativa da rebeldia como atributo da juventude, através do exercício permanente da crítica, investida ou não de razão, contra tudo aquilo que fosse proferido por um adulto, autoridade ou tradição. Terceiro e último, que acudidos pela alentadora opinião da esquerda (seja lá o que ainda represente esse conceito nos dias atuais), o Natal, assim como outras festas burguesas, não passaria de um artifício ideológico das classes dominantes.


Levado por certo estado de espírito, típico do período, proponho uma reflexão um pouco diferente das usuais para pensar o vigésimo quinto dia do mês de dezembro de dois mil e treze. A ela denomino - "Em busca de um verdadeiro sentido para as coisas".


De dia sagrado para os cristãos o Natal foi promovido a data comercial mais importante do ano. Todos aqueles que foram presenteados seletivamente em algum dos outros 364 ciclos de rotação da terra (mães, pais, crianças, namorados, avós, professores) podem ser, indistintamente, agraciados com brindes e lembranças nesse dia. A disponibilidade dos 13° salários nas contas, o pagamento das férias ou o acesso sem maiores obstáculos a empréstimos, cartões de credito e/ou cheques especiais estão aí para impedir que esqueçamos qualquer um. A que se considerar também que as redes sociais, esses "indispensáveis apêndices da democracia moderna", fazendo as vezes da opinião pública, a todos impõe a sombra do estigma ou da ameaça de perda de popularidade de acesso. Risco os quais, sob um consenso tácito, mesmo sem saber o que efetivamente perdemos ou ganhamos, no caso de levarmos a cabo nossa opção pelo comedimento, pela gratidão e pela simples expressão de sentimentos, optamos não correr.


A insubordinação a vontade de um adulto, a reprovação a qualquer autoridade e/ou a recusa a participação em tradições familiares e comunitárias e um dos sinais da juventude. Entretanto, essa, a exemplo de outras fases do nosso desenvolvimento, com seus altos e baixos, compreende um processo gradativo de aprendizado. Com o passar do tempo, essa negação revela-se um comportamento nem sempre favorável. Como logo aprendemos, rebelar-se contra tudo e contra todos e uma atitude quixotesca. E preciso maturidade para distinguir moinho de dragões, amigos de inimigos, oportunidades de crescimento de obstáculos a serem contornados, e, momentos oportunos de ações precipitadas.


Ainda que ter nascido numa classe social específica represente dispor de determinadas oportunidades e ser destituído do acesso a outras num plano imediato, e bastante claro que enxergar nessa circunstância um entrave ao meu completo desenvolvimento enquanto ser humano e uma perspectiva demasiada estreita e limitada. O vinculo que me prende a classe na qual nasci e insuficiente para revelar quem eu verdadeiramente sou e no que, sob o curso de meus próprios méritos e esforços, irei me transformar.


Em busca de uma opinião um pouco mais clara sob essa espessa neblina que a experiência e a autocrítica me levaram a dissipar concluo com a seguinte consideração.


A vida e mistério. O maior e mais insuperável enigma do qual participamos (retomo aqui a pergunta formulada pelo filósofo alemão Martin Heidegger em sua aula inaugural sobre metafísica - "Porque existe o ser e não o nada?"). A ciência avança e, numa proporção superior a ela, o cabedal de perguntas deixadas sem resposta permanece. As religiões nada mais fizeram do que inverter e institucionalizar a lição ensinada por alguns poucos seres humanos exemplares, que, dada a coragem, desprendimento e a grandeza, mostraram ser possível trilhar um caminho diferente daquele seguido pelas multidões. Ensinaram liberdade, ao contrário das igrejas que nos acorrentaram as suas interpretações, rituais e contribuições.


As indústrias, os bancos, as lojas, os prestadores de serviço, as agências de publicidade e os governos, de um modo geral, em função do imenso poder econômico, político e cultural do qual dispõe, apropriaram-se de todos os sinais, símbolos e ícones produzidos pela humanidade e através de estratégias muito bem planejadas de vinculação ininterrupta de imagens e mensagens, nos convenceram de que ser feliz e uma questão de escolha (das marcas) e da aceitação de um novo deus (o dinheiro).


Dia desses, olhando nos olhos de minha filha enxerguei um certo brilho que eu acredito não ter perdido ainda nos meus. Além de ama-la incondicionalmente descobri que eu aos 38 e ela aos cinco buscamos as mesmas respostas...

Will Coutinho Hamon


o mais espezinhado dos poetas
fica calado, plantado à beira mar
sob a ira e o mistério dos homens."
RR

Algo a respirar nas casas naufragadas

Algo a respirar nas casas naufragadas

Amar...


É respirar em casas naufragadas


É virar, subitamente, raro anfíbio


É ser peixe estrela do mar arraia


É uma canção de afundar navios



É romance brutal de Almodóvar


Filmado em cenário de T. Mallick


É ser uma libélula acima do lodo


Âmbar antigo cravado nos ossos



E o amor é este visitante indócil


A revirar alma, móveis interiores


Corte rascante _ que ao cicatrizar _


Deixa eternos traços de Pollock



Alegoria cicatrizada, pura loucura


A loucura, a loucura, a loucura...


Que persigo como um cão ferido


E já sei a curvatura do calcanhar



O amor é todo não/dor que atiras


Lava meu rosto em lágrimas de cal


Grão de angústia, ária de flechas


É sermos um único ser, qual o mito



Atados pela cervical _ eu quero ir


E tu queres ir e, atados, eu não te


Levo comigo e tu me paralisas _


Há que vir um deus antigo, saído



De _ O Banquete _ de Platão


Cortar o que ata minha coluna


_ que me sustenta ferreamente _


À coluna tua a desorientar passos



Depois de livres, continuar atados


Não mais de costas um ao outro


E ao amor... Mas, frente a frente,


Boca a boca, luz a luz, a caminhar



Entre destroços de um navio soul


Ouvindo canções em ritmo lerdo


Corpos colados em ritmo violento


Para recuperar o tempo, enganar



O tempo, apagar o tempo, amar


Enquanto é tempo, amar enquanto


Há tempo


Bárbara Lia se aventura pelo romance, contos e poesia. Nascida em Assaí, vive em Curitiba.


O elogio do mau gosto (III)


  Tu - tão, tão real. Eu - inteiro devaneio.


  Paul Celan



- a partir de algo que ela disse



É tudo brega no mundo


  paisagem no escuro riscada


  por cometa feito fósforo


se não é, um dia vai ser


  pano de fundo


  montanhoso da noite



  imagine agora que as curvas


  dessas tais montanhas contra o céu


  são tentativa


  de falar do teu corpo



como se o discurso não nascesse


morto obsolescência


programada em seu plástico



como se melhor não fosse


enquanto pode ainda ar fluir ritmado nesses lábios


  só para mudez nos meus


impaciente como um rochedo


onde minhas imagens naufragam


  interrompê-los.



Adriano Scandolara é poeta e tradutor, tendo traduzido e pesquisado a poesia do romântico inglês Percy Bysshe Shelley. É autor de Lira de Lixo.

Tratado sobre o silêncio


O silêncio dói muito mais na pele do inimigo que o grito.


Pousa, assim, cálido, como uma resposta sem pontuação.


Deita suave nas concavidades do ouvido.


Desconcerta.


Desmancha certezas.


Hospeda pulgas atrás da orelha.


Arma afiada


Toque lancinante


Estratégia zen


Linguagem dos deuses da arte da guerra.



Karen Debértolis, é autora de Prosa de Palavras entre outros títulos. Vive em Londrina. Seu trabalho musical pode ser ouvido em www.soundcloud.com/karendebertolis


O BAÚ DO MÁGICO


Ontem à noite


a moça mais bonita do circo


se ofereceu ao leão esfomeado



Hoje de manhã


seus ossos foram encontrados pelo anão


e guardados no baú do mágico



Hoje à tarde


o namorado da moça mais bonita do circo


entrou na jaula do leão


e destroçou o animal a machadas



Hoje à noite


o dono do circo deu um tiro


na cabeça do namorado da moça mais bonita do circo


gritou moças bonitas são fáceis de serem amadas


com leões as coisas são diferentes



Amanhã


a polícia constatará


que o leão tentou comer a moça mais bonita do circo


o namorado tentou intervir


o dono do circo procurou salvar ambos


e acabou errando o tiro



No amor


como na fome


todos sabem


não há culpados



Marcos Losnak é autor de Um Urso Correndo no Sótão (2002) e um dos editores da revista Coyote. Vive em Londrina.