Sou o que sou

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Sampa, SP, Brazil
Sou terra, por ter razões. Sou berro, se aberrações. Sou medo, porque me dou. Sou credo, se acreditou
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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Sobre marcos, pontes e mourões


Entre vales e montes, lá ia o menino franzino
chutando as latas do tempo, sorrindo desatino..

Mal sabia aquele pequeno menino
quem em meio aos seus sertões
cantaria suas estrofes em língua afiada
sobre as pontes da vida, aguçados mourões...

Entre estradas e casas ocres , lá ia o sorridente menino
sonhando brasis menos pobres, sob forte sol a pino

sorvendo sabor de doce manga
chutando as pedras à toa, marco repentino
sem qualquer loa ou zanga
vivendo o momento, com o dia matutino

Entre linhas, folhas e letras, lá vinha o mestre menino
ensinando sonhos ao vento, andante peregrino...


(uma singela homenagem ao poeta, ensaísta e escritor, Professor Marcos Pontes Moura)

sábado, 31 de dezembro de 2011

Pequena reflexão para os fins-de-ano.



Que vivemos tempos difíceis, estamos cansados de saber.
Nossa memória não é a mesma, nossos corpos já não nos obedecem com tanta presteza...
Coisas inexoráveis da vida, não há como determos isso, é um fato.
Talvez seja por isso mesmo é que, no seu inverso proporcional, vemos e vivemos tempos superlativíssimos!
Tudo é e tornou-se necessariamente “super-extra-mega-blaster-hiper”!
Em redações não se usa mais uma exclamação ou interrogação: são muitas, exageradamente muitas, como que apenas uma já não pudesse expressar o espanto ou a dúvida inerentes!!!!!
Nada mais é apenas “engraçado”, é sempre “hilário”...Nada pode ser mais “bom”, “normal”, “sob medida”, “justo”, “adequado”...Tem que ser “extraordinário”, “magnífico”, “surpreendente”, “espetacular”, “incomensurável”, “surreal”, “íssimo”...
Li uma informação recente que um hotel defronte à “hiper-super-famosíssima” árvore de natal “gigantesca-super-blaster” na MEGAlópole Nova Iorque , cobrará 3500 dólares por cabeça para uma ceia-SUPER de mais um e simples réveillon, qual seja, mais uma “imponderável” e ínfima volta do planeta Terra, em seu eixo gravitacional maior, o Sol...
Tudo isso com exagerada festa, muita comilança e “bebelança”, numa verdadeira catarse e expurgo, com sorrisos escancarados, como se por um lado o mundo fosse acabar logo mais,e por outro como se a “felicidade” se espargiria “sine qua non” por toda a humanidade, já igualada automaticamente pela “alegria insana” deste momento de exagero festivo.
Isso me fez recordar de coisas do meu passado remoto.
A 1ª é que meu avô, imigrou da “vecchia Itália”,aos 19 anos, no começo do século 20, num navio de imigrantes, junto com centenas de outros aventureiros a tentar uma vida melhor em terras distantes e emergentes.
Meu avô, em sua terra natal era um artífice “Scarpaniere” , traduzindo, um “fazedor de sapatos” , ou seja, na acepção da palavra, um sapateiro!...Tudo muito simples, normal,justo e principalmente sóbrio.
Me lembro com carinho, com que simplicidade enfileirava no jardim na casa da rua Apeninos, a mim e meus primos (seus netinhos) , e com uma folha comprida de grama, media nossos pés, para depois nos presentearmos com sapatos feitos a mão por ele, no natal, ou mesmo sem nenhuma ocasião especial, apenas para o prazer de fazer algo especial por nós.
Outra recordação das boas é que, a meia-noite, era tradição em alguns bairros de São Paulo, principalmente os “colonizados” por aqueles mesmos imigrantes de outrora, já na sua terceira ou quarta gerações , sairmos as portas de nossas casas, a grande maioria sempre muito simples, geminadas e aconchegantes, com martelos nas mãos, a batermos nos postes, anunciando a chegada do ano novo, como se fossem sinos improvisados.
Não havia toneladas de fogos ensurdecedores, não havia programas de canais de televisões suspeitas atrás de “Ibopes”, com também suspeitos “artistas” e que tais, todos peremptoriamente vestidos de branco, ou outras cores suspeitamente simbólicas sabe-se lá de que e para que.
Não pulávamos 7 ondas, não comíamos 7 bagos, não entravamos nas águas marinhas de costas, nem de lado, nem de forma alguma, esperando um porvir certo de vitórias e felicidades todas, obrigatórias e imprescindivelmente inequívocas...
O que tínhamos eram apertos de mãos compromissados com amizade, parentesco e carinho.
Tínhamos abraços sinceros, nada efusivos, apenas quentes e sóbrios, a nos desejarmos ao futuro sequente equilíbrio, temperança, e uma vida condizente com probidade, proficuidade,tudo na medida certa, de acordo com as necessidades de cada um.
Pois é!...coisas muito simples, normais, singelas, sóbrias, que se tornaram superlativas para sempre, em nossas memórias.
Sem superlativos, nem doutorados, nem “MBAs”, nem empáfia, soberba e esquisitices hipócritas, nem arroubos emocionais descontrolados, num ataque de histeria coletiva sem precedentes...
Tanto é que, muitos de nós desejávamos uns aos outros, um “Feliz Ano Bom”.
Apenas bom, já estaria de justo tamanho!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Gueixa



oh! nívea gueixa
louco, é como me deixas...
me embriagam teus olhos puxados
pela pintura excêntrica, amendoados
ainda beijarei tua boca vermelha
da cor que vem da centelha
desdobrado em origami
me diga se há alguém
que, por aqui e acolá, mais te ame!

Enrola-me no teu dorso em sono
nas tiras apertadas de teu quimono
dopa-me com teu saquê sabor instinto
pois inda me embrenharei perdidamente
neste teu tênue labirinto...

oh! gueixa, eternamente discreta
que enfrentou insanos impérios
padeceu condescendente e quieta
amou escondida, nobres e samurais
segredou de todos, os nossos mistérios
e levou-os à tumba fria e reta
nos desvelos dos Titãs imperiais...

Até o Japão, desbravarei teus 7 mares
tirarei meus sapatos e ajoelharei
em teus esfumaçados altares
e depois, de aprender teus segredos
audazmente , mitigarei meu medos
e ao meu corcel em fuga, te içarei...

Deixa, minha serena gueixa
te tomar em meus intensos braços
me prender em teus doces laços
beber tua cristalina lágrima
abrir-te como adormecida crisálida
vem!... Preenche e doma
meus fecundos espaços
vem!...torna-me teu axioma...

sábado, 26 de novembro de 2011

Jão que sonhava


E então, era o Jão que sonhava
e sonhava, e sonhava, e sonhava
era Jão que sonha o sonho de ser remador
que sonhava em ser o mais forte semeador
e sonhava o sonho que vinha
viesse de onde vinha
dum cacho de uva ou d’outra sardinha
duma lata amassada ou vã ladainha
e sonhava, e sonhava, e sonhava
que tinha o sonho dum grande amor

Era então que sonhava o sonho de tolo
dum copo de sonho, um pedaço de bolo
e sonhava que a linha do seu horizonte
viesse como vinha, de trás de um monte
e sonhava, e sonhava, era o Jão que não tinha
era o Jão que não vinha, dum vinho de bodas
dum sonho, poucas bocas e rimas todas
e sonhava, e sonhava, era assim
como um sonho, de tolo risonho
era Jão que num sonho, sonhava tristonho

E então belo dia, de barriga vazia
sonhou o que sonhavam , de dentro da pia
que sonhava o sonho dum pão que não existia
e fazia, e queria, e pedia, e sofria
todo sonho sonhado, dum Jão que dizia
“que sonho faminto, minha Ave Maria !”

Era então que sonha o Jão
dum sonho de brisa, num danado calor
e sonhava, e sonhava e cantava
com todo sonho de fé e louvor
e falava, e chorava, e gritava
“Valhe-me meu Jesus Cristo,
que na sua cruz, morreu por amor,
me faz ver o que o justo tinha visto,
filho dos sonhos do Nosso Senhor !”

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Ianê Mello entrevista Joe "Brazuca" Canônico (ou "Lustrando o ego II")


(Ianê Mello entrevista Joe Canônico, no blog Entre Gêneros)

EntreGêneros: "Sou terra, por ter razões. Sou berro, se aberrações. Sou medo, porque me dou. Sou credo, se acreditou."
Assim você se auto define, de forma poética, em seu blog. Fale-nos um pouco sobre você; sobre a pessoa além de seus versos.


JB: Bem, Ianê...Primeiro quero te agradecer a oportunidade da entrevista. Muito me honra, de verdade !
Falar da gente, sem cabotinismo, é tarefa complicada, pois pelo sim ou pelo não, o espelho é o que nos PARECE ser, e por muitas vezes tem reflexo distorcido ! (rs rs)
Eu, de uma forma palmar, sou um sujeito simples, sem maiores afetações, coisa e tal, tudo dentro de um viés mediano...
Não tenho nenhuma pretensão mais ou menos acirrada sobre a vida, a não ser vive-la ao meu modo (???...rs rs), e deixar viver cada qual ao seu !
Parece-me de bom tamanho, nessas alturas de minha existência terrena, seja lá o que signifique isso...

EntreGêneros: Você tem na música sua profissão. Como é viver em nosso país como profissional de música? Fale-nos um pouco sobre esse seu lado artístico e sobre as dificuldades que enfrenta.

JB: Bem...Na verdade, eu não vivo apenas de música, não. Apesar de ser, dentro de um universo próprio, talvez a mais importante delas (atividades...), hoje, no momento atual, se tiver que me “auto-rotular”, seria assim um “produtor multimídia”, onde abrangeria “n” correlatos, tais como produções em vídeo, áudio (em geral, e música inclusive), internet, enfim, numa “seara” de circunscrição mais vasta, além da música em si.
Contudo existe um porém aí : a PAIXÃO é por ela, indiscutivelmente ! (rs rs)
Aproveitando o gancho : as dificuldade para qualquer pessoa, brasileira, que pretenda sobreviver de sua arte, de uma forma séria e real, é sempre ungida de
grandes dificuldades e tormentos...Acredite nisso !
Se vale a pena ?...Isso já são “outros 500 cruzeiros”, ou como diríamos nós, os músicos, “outras fusas”...

EntreGêneros: Como começou seu namoro com a escrita? Quais suas leituras e autores inspiradores?

JB: Voce definiu bem ! Foi uma “paquera” ( coisa antiga isso...rs rs) , que virou um “namoro”, que virou um caso sério de amantes inveterados ! (rs rs)
Pelo que me lembro, aliás lembraram-me meus pais, que desde muito jovem, já dava lá minhas “tacadas” pelas sendas da poesia e que tais.
Na verdade, sempre gostei de “escrivinhar” , rabiscar minha coisas, assim como outros tantos da nossa espécie ( a humana...) assim o fazem !
E como sabemos, começa como comichão e acaba nos tomando como urticária,
com o perdão da comparação esdrúxula !
Quanto à “inspiração”, prefiro definir como “um vasto pomar abarrotado de frutos de todo matiz”...Dos muito bons, até os mais maduros, passando pelos extremamente verdes e pegajosos, até os “quase podres”.
Neste pomar, não há lugar, EM PRINCÍPIO ( desculpe o grito !...rs), para escolher sabores...Tem-se, a minha ótica, que se provar de todo fruto, e depois selecionar
os que, cada um a seu mote, lhe prouver !

EntreGêneros: Os sentimentos humanos são constantemente motivação e tema na escrita poética. O quanto você expõe de suas próprias emoções ao escrever?

JB: Isso dá uma exegese ! (rs rs)
Bem, em todo caso, é fácil...Procuro, de uma forma geral, “escapulir” desse “sentimentos” meus, próprios do humano, no momento que tento esboçar tais linhazinhas...
Por mais antagônico que nos pareça, eu procuro me abster delas, o mais possível, para que, de alguma forma, surja sempre algo mais próximo de um “racio-emocional”, ou seja, algo que esteja em sua minoria, vinculado ao meu “eu inferior”, meu “id”, o que ao meu ver, embota circunstancialmente de uma universalidade “saudável” à escrita, seja ela de que tipo for, prosa, poesia etc.
Particularmente, eu não acredito que, se consiga escrever “com a alma”, sem correr-se o risco de um “tropeção” no abismo de nossas autocomiserações e visões particularistas sobre os nosso próprios “universos”...
Mas, isso é uma verdade só minha, sem quaisquer alusões e/ou críticas a quem quer que seja, que pense diferente, e que escreva esparramando seu “emocional” pelo papel...

EntreGêneros: Joe Brazuca, Joe Canônico, são alguns dos nomes que você inventou para si mesmo. Prefere usar pseudônimos a seu nome real? Quantos "Joes" existem no artista e como se exprimem?

JB: (rs rs)...Então...
A resposta da pergunta acima, vem justificar, de uma certa forma, o “significado” de tantos “nick names”...rs
Realmente, tentamos criar “personagens de nós mesmos”, em nossas vidas e experimentações. Exatamente para desvincular a “persona” da “personificação” !
Contudo, no meu caso, existem explicações, que sejam :
Joe (nos dois casos...) é uma “corruptela” de João Eduardo, meu “verdadeiro” nome, mas NÃO É um nome “artístico”, que abomino tal expressão...rs. Seria apenas um “resumo facilitador”, mais identificável !
O “Brazuca” surgiu de uma “brincadeira” na internet, entre mim e o poeta/músico/multi-artista Lailton Araújo , grande amigo.E significa o que o próprio apelido quer significar : Joe, em BRASILEIRO, com muita honra !...rs
Já, o “Canônico” é sobrenome de família mesmo...Desse, nesta encarnação, não posso escapar !...rs
Os “Joes”, “são” apenas um enquanto corpo, mas infinitos vários, enquanto tentativas, acertos e erros...C’est la vie !

EntreGêneros: Em sua poesia você gosta de brincar com as palavras, tendo na criatividade sua marca registrada. A busca constante pela inovação exerce um papel importante na sua escrita? Escrever para você significa uma forma de auto-superação?

JB: Sempre, Ianê, cara poetisa !...A auto superação é, a meu ver também, o mote principal de toda e qualquer arte. Ai de quem fizer o contrário !...Daí, não será mais arte ! Será qualquer coisa, menos arte...No meu entender da “inutilidade” da arte, tudo que vem abaixo da auto superação, corre o risco da rudimentar especulação até o ridículo...
Quanto a “brincadeira” com as letrinhas, isso me fascina, tanto em mim (sem falsa modéstia...rs), quanto em tantos outros escritores que conhecemos, pois isso traz a SONORIDADE da palavra escrita, através da sua tradução falada, que por vezes, nada significam num contexto presumível, e na verdade, nem é para significar nada !...Apenas e tão somente, a MUSICALIDADE dessa mesma palavra que , por hora, perdeu o sentido crasso, para ganhar o sonoro, o lúdico, o poético...

EntreGêneros: " Todo escritor precisa de paz para sangrar", diz Fabricio Carpinejar. Esse pensamento se aplica a você?


JB: Putz !...é uma máxima do paradoxo da “criação” !...falou e disse, o Poeta Carpinejar ! Tô com ele e não abro !...rs rs

Muito obrigado, cara Ianê, um beijo !...Espero ter satisfeito o intento !

Joe “Brazuca” Canônico

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Marcelo Novaes entrevista Joe "Brazuca" Canônico (ou "Lustrando o ego")


(O Escritor/Poeta Marcelo Novaes entrevista Joe Canônico em 6 DE NOVEMBRO DE 2010)


MN: Bom conversar com um maestro, com quem sabe por trilha sonora na paisagem. "Joe Brazuca é terra", diz você. Em que grau, Joe? E qual a trilha sonora da paisagem que teu olhar enxerga?

JB: Novaes !...Primeiro deixa te agradecer publicamente ao convite!...Valendo muito !

Esse lance de trilha sonora é bizarro, sabe?...rs...
Me fez lembrar um professor de composição que tive na “facul” (rs rs rs...) que vivia dizendo que “compositores se medem pelo fôlego: se são bons, tem o fôlego longo, se ruins, o fôlego é curto” (conceito completamente fora de propósito, claro !...). Um belo dia, pra arrasar mesmo (sempre fui muito “ácido” em minha vida escolar e acadêmica), me levantei e “machuquei”: e os criadores de jingles geniais e super conhecidos, como é que ficam ?...Serão eles “compositores menores” por criarem estruturas composicionais perfeitas de no máximo 30 segundos ? Não deu outra: classe se esborrachou e o mestre me virou a cara por um bom tempo... O que valeu, foi que ele (ao menos nos pareceu à época...) começou a mudar seu conceito, pois trocou o seu bordão...

Joe Brazuca é terra por ter que viver nela, inexoravelmente! Pelo menos seu lado corpóreo, mesmo que, sua mente pseudo-poética, viva um bom tempo longe dela, sabe-se lá onde... Contudo ele é “Terra Total”, quando vê seu próximo sofrer os desmandos dos déspotas, e o aniquilamento dos direitos inequívocos do humano, a serviço do desumano... Quanto vê e sente o caminhar desenfreado das injustiças sociais e os perigos emergentes da Nau do mundo, que insiste estupidamente no equívoco do dualismo entre bombordo e estibordo, esquecendo-se que, a qualquer lado que aderne, corre sério perigo de afundar, esquecendo-se da importância da quilha central, que promove o equilíbrio... Quando vê crianças entre cavalos de aço, implorando migalhas à sociedade que lhe mostra solidárias, em propagandas de governos absurdas e caóticas, e nas telinhas brilhantes das TVs... Quando observa a fanfarra de uma sociedade hipócrita que nega a si mesma, absorvida pelo desejo nefasto de TER, pela prepotência de SER, e pelo esquecimento do FAZER e CRIAR...

A minha trilha ?...É a mesma que a sua...que a nossa...que a de todos os homens de boa vontade: igualdade em Sol maior / fraternidade em Lá sustenido / Solidariedade em Si bemol e Caridade em Dó maior...(rs)



MN: Quanto de absurdo cabe na tua escrita, Joe?


JB: Todo ele. Onde e quando e como estiver.O absurdo é meu universo, meu mote, meu lastro criativo ou pseudo-estrutural. É o cimento do meu caos individual e perpétuo. É a morte do meu mundo ectoplásmico. É minha antena enferrujada de maresia, sem anestesia, que captura a anti-matéria do inconsciente, do obscuro id.



MN: Você é "canônico” no sobrenome [João Eduardo Canônico], e também religioso. Você enxerga algum olhar enviesado quando assume a religiosidade na escrita ? O profano [ou profanador] é mais pop?


JB: O sobrenome é uma sina, um signo, uma senha... Fui premiado e/ou amaldiçoado com o meu!...rs. Contudo, a religiosidade contida nesse conjunto de letras, bem como sua livre tradução (cânon, cânones eclesiásticos, regras episcopais, e que tais...), não exprimem as minhas verdades e vertentes religiosas.

Religião vem de “religare”, e nós já nascemos ligados! E permanecemos ligados todo o tempo à “Nave-mãe”. Só teimamos em não perceber essa sutileza. É mais prático pensarmos em autonomia. Porque delibera e valida o livre arbítrio. Mas este, o livre arbítrio foi uma conquista compulsória.

Mas isso não é de certa forma, nossa “culpa” (ela sempre aparece nesses quesitos, inevitável...rs: as próprias religiões e seus dogmas fabricados é que nos afastaram, paradoxalmente, da verdadeira idéia de Deus e seus adjacentes. Ou seja, de uma forma palmar, o que era pra ser, não foi e vice-versa, ao contrário...o avesso do reverso: a "piece de resistance” do submerso.

Agora, o que muda é o caminho (como o arqueiro Zen, o que importa é o caminho e não o alvo...), o tipo de coligação, conceitos e preconceitos inerentes, coisa e tal... Daí é que entra o sacro e o profano, que hoje se misturam, tal como o politicamente correto e sóbrio, e o politicamente incorreto e anárquico... Mas não vejo nisso uma condição de dosagem no templo do pop, nem pra mais, nem pra menos...O pop é pela sua condição de não ser, e se auto-anula, não pelo profano, mas pelo contrário, pelo sacro.

O paradoxo que transmutou em paradigma. “Ecce Homo”.


MN: Quais as adjacências da tua escrita? A tua letra roça em que?

JB: Essas “writer-adjacências” são e estão às semelhanças de quem as roça, e vice-versa, reciprocamente equilibrado. Aliás, adjacências, roçar e que tais, soam um belo Tango!...É isso! Minha escrita, quando roça em que, ou em quem, está adjunta a um Tango ! ... Óbvio ululante. rs rs rs


MN: O que te ensina a "cúbica solidão"? [A solidão é cúbica em certa poesia tua...].


JB: A solidão é sempre um inteiro que tende em metade, dentro um quarto. Todo quarto é cúbico. Todo cubo é solitude inteira, ao quadrado. Silogismo auto-redundante-cíclico básico. Pura efeméride aritmética.



MN: Quais são suas "divas peroladas", nas artes? E com que escritores é bom conversar? Complementando, e melhor ainda: com quais é bom interromper a conversa?


JB: Qualquer arte (ainda não sei bem o isso significa...) que me espelhe ou espelhe as pupilas que me observam, tal como madre-pérola. Puro “state of art”. Puro êxtase divinal.

Converso com os escribas que me convidarem à interlocução, dependendo do nosso estado de espírito. Do meu, por compulsão, os deles, por conclusão. Estamos todos sempre procurando por alguém, todo tempo, mesmo que seja por nós mesmos.
No momento mantenho estreito colóquio com Dante Alighieri, Norman Mailer e Augusto do Anjos...

Graciliano Ramos e o Evangelho segundo o Espiritismo e “Quem somos nós”, são meus amigos de cabeceira, no momento. Intercalo conversas interessantes entre eles... ah! despendo todo tempo que posso, em muitos blogs de amigos, correligionários e circundantes: “blogo-esfera” das letras (e algumas dos sons...) são também pérolas nacaradas de rara beleza...!

Hoje em dia interrompo qualquer esboço de colóquio, em se tratando de embustes políticos sobre as questões intermináveis da Humanidade.

Com o perdão do termo chulo que logo se aproxima: tal como ações políticas nefastas acabam em “pizzas”, principalmente em países deficitários, diálogos políticos costumam acabar em merda. Não tenho nem mais idade, nem mais intimidades para isso. E olha que me considero um “homo politicus”!



MN: O músico tende a valorizar mais ritmos e aliterações [compassos e síncopes, "a música escondida na fala"] do que imagens?


JB: Sem dúvida. A palavra é a medida exata da sua sonoridade. Transmuta-se com o ritmo. Acasala-se com a harmonia. Quando a palavra aglutina-se ao “modus operandi”, do trinômio Melodia, Harmonia e Ritmo, cria-se uma situação única e irreversível à nível semiótico: ficarão completamente fundidas, quase como luz, quasar e matéria.

Imaginemos uma poesia. Depois que ela é musicada, jamais conseguiremos entendê-la da primeira forma. A recíproca é verdadeira.

Por vezes, uso este recurso, a aliteração, em meus trabalhos, às vezes também, algo que esbarra no “absurdo” (aquele, lá de cima...rs), mesmo que fuja o nexo, pois é provável que naquele instante, perante aquela verdade poética, a fonética é o que vogue.



MN: O poema cutuca o medo, apazigua, ou ambas as alternativas? Acha que a poesia é boa oração, ou pálido substitutivo de quem não sabe orar?



JB: Sem dúvida, ambas. O poema é um grito no escuro. Assusta tanto à vítima, quanto ao algoz. É adrenalina e Lexotan. Cafeína com Rivotril. LSD com marshmallow. Tudo concomitantemente sincronizado. Nada é funcional sem a emoção e tudo é emocional em sua função.O Poema é a exegese de si mesmo. Proposição semiótica da escrita e fala. Ensaio do palco do surreal.


A boa oração é a poesia de quem não sabe versejar.

A poesia, tal como a oração, é intrinsecamente insubstituível. É o codex do divino, sempre, seja ela como for, venha de onde vier, vá para onde queira. “Carmina Burana”, saca?

MN: Dos escritores, roteiristas e dramaturgos que você já leu [e eu sei que você gosta de roteiros e peças, como textos], quem [ou quais] colocou [/colocaram] mais musicalmente as coisas e as idéias, mesmo sem o pentagrama estar ali?


JB: Glauber Rocha, sempre.
Constantin Stanislavski, de uma certa forma.
Federico Fellini, incontestavelmente.
Píer Paolo Pasolini, algumas muitas vezes.
Luigi Pirandello, “comme il faut”.
François Truffaut, música pura

Obrigado, caro Novaes!

MN: Obrigado, Joe.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Despedida (em 7 notas mudas, não tocadas)



Absorvo a palavra inerte d’um credo extinto
pregada nas tábuas rotas do cais salobro
o sabor da fúria do que sinto, vejo e minto
nunca houve diálogo tão sem verve, ao dobro
[Quimeras d’água salgada esperneiam...]

Sinto o quadrangulo de um sóbrio quarto
inspirando o que deste vento ameno assopra
e leva as sementes a quem amargamente, as evoca
envelhecidos tonéis embarcam, eu parto...
[aplausos !...a platéia delirante aguça a sanha]

Mentes que antes se esvaeceram em sólidos medos
ora se transmutam em gases pífios e forçam o poema
que se esforçam em driblar a ferro, os tiques e toques
nas masmorras forradas de poeira de corpos e lemas
[o quinteto executa a saga de um cristal quebrado]

Tão eloqüentes enquanto se calam, cenas gritam
aos uivos incrustados nas grossas lágrimas retintas
fingem o açúcar mais doce, quando amargo soam
e dançam píncaros exaustos de lamentos crus
[alianças tilintam nos ladrilhos dos palácios]

Linhas paralelas se cruzam num possível inexistente
conjugam o (des)verbo do absurdo inconsciente e nulo
onde retinas jazem ao véu de discursos obsoletos,
e se distanciam em árduas esquinas plantadas em muros
[as maçãs caem de seus fracos arbustos e poluem]

O que os gestos retalhados, navegam aos seus cumes ?
Invocam rezas e canções idolatradas incólumes
miram ao longe, tão perto quanto possam arremessar
sufragam em sonhos descomedidos e disformes
[as gruas se afastam e apontam o esplendor do caos]

Expressões de ira, iradas aprontam as miras e atiram...
os devaneios dos anjos dizem “assim seja para sempre”
Tombam as exéquias em posição vertical, no horizonte
Braços abertos acima, se esquivam do ritual e do centro
[o pano fecha...o teto desaba...as portas são lacradas...]

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

sombras


tenho um lado vil
assim, meio servil
que faz muito alarde
porque é mais covarde

um lado falso
completamente canalha
que ajuda empurrar,
vestindo a mortalha,
o inocente do cadafalso

um lado que espezinha
sorri à navalha cortante
se achega sempre distante
astuto se acerca, se avizinha...

um todo tanto obtuso
de um sorriso escabroso
que usa sempre o abuso
e se lastima medroso

um lado que fede perfume
maquia com betume
disfarça a pele flácida
e se mantém plácido
ao cheiro do curtume

de pura peçonha
que baba na fronha
só tem pesadelos
de arrepiar os pelos
e finge que sonha...

um lado de unhas sujas
mãos sempre meladas
carimbos de garatujas
obras perenes e inacabadas

eternamente infame
que só se dá ao reclame
que se esconde na noite
acaricia com açoite
e provoca o enxame

um lado tanto gelado
que se esgueira de lado
com porte adequado
nunca certo, todo errado
excêntrico , marginalizado...

um lado soberbo
por roubado acervo
com perfil escuso
de empáfia sórdida
nunca concluso
e polidez mórbida...

tenho um estranho lado
meio tudo, meio nada
personagem disfarçada
sempre camuflado
meio assim, meio assado...

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

“Harpa é uma asa que toca” (*)


Depende de como se foca
harpa é uma asa que toca
meio assim, meio assado
nem muito de frente
nem meio de lado
como se outro ponto de vista
do gosto de quem assista
uma foca morasse numa toca !
...e um grande mar todinho
seja bem pequenininho
e dentro dum pequeno ninho
uma enorme onda, desemboca...

depende de como se toca
a harpa pode ser de quem foca
como se toda asa
deixasse todo ar que vaza
e mostrasse que apesar de oca
toda toca sempre acolhe,
nos encanta e nos recolhe
como o calor de nossa casa...

depende de como se enfoca
a harpa é uma pequena asa
que fica em toda casa
do coração de quem se toca...


(*- esta frase, que deu o "start" à pretensa poesia, é uma das célebres frases retiradas dos exames do Enem.É claro que, academicamente falando, nos parecem sempre "absurdas" as respostas, contudo por vezes, vem carregadas de verdades e de extremo lirismo, o que vem mostrar ao meu ver, que todo o estabelecido, por mais exato que possa parecer, mostra apenas uma vertente do fato, do objeto ou do senso.Um pouco de anarquia não faz mal a ninguem...)

sábado, 1 de maio de 2010

eróptca


[Toma um cálice por mim...
Dá-me do teu melhor vinho
aquele, para o qual eu vim
aconchegar-me em teu ninho
]


Lasciva mente, vem e senta
num axioma-ventre , me tenta
pousa tua taça, emborcada
um tanto quanto arcada
molha-me em supino quente
resvala tua vala e tala-me
escoa-me rubro, docemente
verborrágica lícita dentada
terna e mágica viagem içada
Toca-me em jejuno casto
alastra-me teu afoito laço
gingo-te escambo afoito
até que em repente coito,
até que exposto em fogo,
afoga-me em liquor louco
onde um, mesmo que dois
é deveras pouco...
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