Domingo XXIII Tempo Comum
Is 35, 4-7; Tg 2, 1-5; Mc 7, 31-37
Ouçamos bem as palavras da 1ª leitura, tiradas da Profecia de Isaías: “Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus: vem trazer a justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-nos. As águas brotarão no deserto e as torrentes na aridez da planície; a terra seca transformar-se-á em lago e a terra árida em nascentes de água.” Qual é o impacto que estas palavras têm hoje em nós? Que Deus não deixará nunca de ser fiel à sua aliança, que a sua palavra é eficaz e que nunca nos deixará sós, que Ele é o Senhor da nossa história e o bem e o amor terão sempre a última palavra.
Serão certamente palavras de consolo para nós, que vivemos as dificuldades do dia-a-dia, tal como, na altura em que foram escritas foram palavras cheias de esperança para o povo de Israel que vivia longe da sua terra. É admirável como a Bíblia enche de esperança não só a vida dos homens, mas até a vida do próprio mundo. A presença de Deus e o seu poder de curar transforma o mundo e a criação. Estas palavras poderão ser motivo de esperança nos momentos de dúvida e dificuldade que estaremos a viver.
Mas creio que não é suficiente falar em termos de esperança de uma forma tão poética que no fundo não nos leve a deixarmo-nos tocar e transformar radicalmente. Ultimamente tenho sentido a dificuldade de falar de esperança nos tempos de hoje. Que impacto terão estas palavras em quem está a sofrer enormes dificuldades neste momento do nosso país? Que impacto é que estas palavras têm em quem não tem emprego, por exemplo os milhares de professores que não ficaram colocados, ou os aumentos das dificuldades que ainda virão a partir das novas medidas de austeriade que foram anunciadas recentemente? Esperamos que um dia as coisas melhorem e que todas estas medidas tragam algum efeito, mas quem sofre hoje na pele os efeitos desta crise não se convence com a poesia que acabamos de ouvir.
E quer isto dizer que a palavra de Deus é poesia desencarnada, é apenas consolo espiritual e psicológico? Não pode ser, teremos de ir muito mais longe! A Igreja, que não é apenas o Papa, os Bispos e Padres terá de ir muito mais longe não só no anunciar a esperança, mas torná-la presente na vida das pessoas. Se não, não estamos a actualizar o Evangelho e a sua mensagem de radical esperança.
O Cardeal Martini, recentemente falecido, e que foi objecto de muitas referências na comunicação social na altura da sua morte, deixou-nos inúmeros desafios. Um deles é o seu sonho para a Igreja, que ele referiu numa homilia em 1996. Martini sonhava uma Igreja que deseja falar ao mundo de hoje, à cultura, às diversas civilizazões, com a palavra simples do Evangelho; uma Igreja que fala mais com os factos do que com as palavras; uma Igreja consciente do caminho árduo e difícil de muitas pessoas hoje, dos sofrimentos quase insuportáveis de uma grande parte da humanidade, sinceramente participante das penas de tantas pessoas e desejosa de consolar; uma Igreja que traz a palavra libertadora e encorajadora do Evangelho àqueles que suportam fardos pesados; uma Igreja capaz de descobrir os novos pobres e não demasiado preocupada em errar no esforço de ajudá-los de maneira criativa.
Esta Igreja somos nós e no momento presente da nossa história devemos ser inspirados por esse sonho. O que é que eu posso fazer, aqui, na nossa cidade, na minha rua, na pessoa que vive a meu lado e passa por mim todos os dias? Que esperança tenho para fazer, mais do que falar?
O Evangelho apresenta-nos, por outro lado, um episódio de cura de um surdo-mudo. Este homem é tocado por Jesus e curado através da sua palavra cheia de poder: abre-te! O que é este abrir? No nosso diccionário significa: afastar, alargar, começar, desamarrar, desimpedir, inaugurar… Tudo verbos que significam alargamento, início, promessa. Mas na gramática do Evangelho, abrir significa também maravilhar-se, pôr-se em questão, alargar-se, levantar-se, lutar, alegrar-se. São estes os efeitos do milagre de Jesus na vida deste homem. Também nós seremos capazes de nos deixar tocar e deixar que a nossa vida se abra, se maravilhe, se ponha em questão, se levante? Seremos capazes de nos assombrar e exclamar: Tudo o que faz é admirável?
Tudo isto o teremos se nos deixarmos verdadeiramente apaixonar por Jesus e pelo seu Evangelho, para sermos concretamente este sinal de esperança. Peçamos ao Senhor a graça de nos apaixonarmos pelo Evangelho e pelo sermos cristãos em todos os sentidos da nossa vida.