09 setembro, 2012

Domingo XXIII Tempo Comum [Ano B]

0comentários

Domingo XXIII Tempo Comum 
Is 35, 4-7; Tg 2, 1-5; Mc 7, 31-37

Ouçamos bem as palavras da 1ª leitura, tiradas da Profecia de Isaías: “Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus: vem trazer a justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-nos. As águas brotarão no deserto e as torrentes na aridez da planície; a terra seca transformar-se-á em lago e a terra árida em nascentes de água.” Qual é o impacto que estas palavras têm hoje em nós? Que Deus não deixará nunca de ser fiel à sua aliança, que a sua palavra é eficaz e que nunca nos deixará sós, que Ele é o Senhor da nossa história e o bem e o amor terão sempre a última palavra. 

Serão certamente palavras de consolo para nós, que vivemos as dificuldades do dia-a-dia, tal como, na altura em que foram escritas foram palavras cheias de esperança para o povo de Israel que vivia longe da sua terra. É admirável como a Bíblia enche de esperança não só a vida dos homens, mas até a vida do próprio mundo. A presença de Deus e o seu poder de curar transforma o mundo e a criação. Estas palavras poderão ser motivo de esperança nos momentos de dúvida e dificuldade que estaremos a viver. 

Mas creio que não é suficiente falar em termos de esperança de uma forma tão poética que no fundo não nos leve a deixarmo-nos tocar e transformar radicalmente. Ultimamente tenho sentido a dificuldade de falar de esperança nos tempos de hoje. Que impacto terão estas palavras em quem está a sofrer enormes dificuldades neste momento do nosso país? Que impacto é que estas palavras têm em quem não tem emprego, por exemplo os milhares de professores que não ficaram colocados, ou os aumentos das dificuldades que ainda virão a partir das novas medidas de austeriade que foram anunciadas recentemente? Esperamos que um dia as coisas melhorem e que todas estas medidas tragam algum efeito, mas quem sofre hoje na pele os efeitos desta crise não se convence com a poesia que acabamos de ouvir. 

E quer isto dizer que a palavra de Deus é poesia desencarnada, é apenas consolo espiritual e psicológico? Não pode ser, teremos de ir muito mais longe! A Igreja, que não é apenas o Papa, os Bispos e Padres terá de ir muito mais longe não só no anunciar a esperança, mas torná-la presente na vida das pessoas. Se não, não estamos a actualizar o Evangelho e a sua mensagem de radical esperança. 

O Cardeal Martini, recentemente falecido, e que foi objecto de muitas referências na comunicação social na altura da sua morte, deixou-nos inúmeros desafios. Um deles é o seu sonho para a Igreja, que ele referiu numa homilia em 1996. Martini sonhava uma Igreja que deseja falar ao mundo de hoje, à cultura, às diversas civilizazões, com a palavra simples do Evangelho; uma Igreja que fala mais com os factos do que com as palavras; uma Igreja consciente do caminho árduo e difícil de muitas pessoas hoje, dos sofrimentos quase insuportáveis de uma grande parte da humanidade, sinceramente participante das penas de tantas pessoas e desejosa de consolar; uma Igreja que traz a palavra libertadora e encorajadora do Evangelho àqueles que suportam fardos pesados; uma Igreja capaz de descobrir os novos pobres e não demasiado preocupada em errar no esforço de ajudá-los de maneira criativa. 

Esta Igreja somos nós e no momento presente da nossa história devemos ser inspirados por esse sonho. O que é que eu posso fazer, aqui, na nossa cidade, na minha rua, na pessoa que vive a meu lado e passa por mim todos os dias? Que esperança tenho para fazer, mais do que falar? 

O Evangelho apresenta-nos, por outro lado, um episódio de cura de um surdo-mudo. Este homem é tocado por Jesus e curado através da sua palavra cheia de poder: abre-te! O que é este abrir? No nosso diccionário significa: afastar, alargar, começar, desamarrar, desimpedir, inaugurar… Tudo verbos que significam alargamento, início, promessa. Mas na gramática do Evangelho, abrir significa também maravilhar-se, pôr-se em questão, alargar-se, levantar-se, lutar, alegrar-se. São estes os efeitos do milagre de Jesus na vida deste homem. Também nós seremos capazes de nos deixar tocar e deixar que a nossa vida se abra, se maravilhe, se ponha em questão, se levante? Seremos capazes de nos assombrar e exclamar: Tudo o que faz é admirável? 

Tudo isto o teremos se nos deixarmos verdadeiramente apaixonar por Jesus e pelo seu Evangelho, para sermos concretamente este sinal de esperança. Peçamos ao Senhor a graça de nos apaixonarmos pelo Evangelho e pelo sermos cristãos em todos os sentidos da nossa vida.

05 fevereiro, 2012

V Domingo do Tempo Comum (ano B)

3comentários

 V Domingo do Tempo Comum 

Job 7, 1-4, 6-7; Mc 1, 29-39


As leituras que hoje temos na liturgia do V Domingo do Tempo Comum abrem com um texto difícil, que toca a realidade humana no seu aspecto mais difícil e dramático. O livro de Job é um longo diálogo entre Job, o homem do sofrimento e três amigos quo o visitam para o consolar da sua desgraça. O texto que ouvimos apresenta-nos o drama humano da falta de sentido e horizonte da vida. Deita-se já desanimado com a hora em que se vai levantar, sabendo que vai encarar mais um dia de sofrimento. Levanta-se já a desejar a hora do deitar, para que chegue ao fim mais um dia difícil. E os seus dias desvanecem-se sem esperança. É tremenda a realidade humana quando não espera, quando não encontra luz para os seus caminhos. A escritura está cheia destes episódios e expressões que mostram como a vida humana, com toda a sua grandeza, não consegue evitar a dor. São expressões densas e difíceis de digerir. Quase nos custa ouvi-las porque põem a nu aquilo que tantas vezes sentimos e aquilo que observamos também no mundo à nossa volta.


A escritura não evita a realidade humana tal como ela é, se não, estaríamos a ouvir um conjunto de fábulas bonitas que nos desligam da nossa vida. “Os meus olhos nunca mais verão a felicidade”. E aqui estamos diante da expressão máxima de quem está prestes a cruzar os braços e não esperar mais nada do dia de amanhã. Não gostaríamos certamente de viver assim, mas o facto é que, muitas vezes, o dia seguinte apresenta-se como mais do mesmo, sem novidade. Podemos não viver o mesmo drama de Job, mas vivemos esta experiência de uma espécie de cansaço existencial, uma rotina que nos faz viver automaticamente. Se não esperamos nada de novo, então o horizonte da nossa vida está fechado, sem luz e sem glória. Podemos viver até pequenas felicidades, mas falta-nos, no mais fundo de nós, uma “rampa de lançamento” para a vida. As notícias que ouvimos diariamente parece que nos convencem que não há nada de bom a esperar no futuro, e tentamos defender-nos a todo o custo do impacto das conjunturas e das circunstâncias. Como se fôssemos rodas na engrenagem que acabam por não poder decidir nada acerca do próprio destino. Podemos viver tão atados e paralisados nos esquemas que nos são impostos e que impomos a nós mesmos. E assim, convenecemo-nos, quase inconscinetemente que, de facto, “os nossos olhos nunca mais verão a felicidade”.


Mas se o cristianismo nos apresenta a fé e a esperança como o motor da nossa vida, como é que esta proposta tem eco, é consistente, tem densidade, para não cair numa promessa ingénua que não reflecte o nosso dia-a-dia e as questões que nos colocamos mais seriamente? Como é que a esperança é eficaz, sem ser apenas uma promessa de que, no fim da vida, alcançaremos a felicidade? O cristianismo não levaria a sério a vida humana se nos prometesse uma felicidade apenas depois da morte. Se assim fosse, toda a nossa vida seria estarmos aqui, “gemendo e chorando neste vale de lágrimas”. Com todo o respeito e devoção que tenho pela oração tão bonita do “Salvé Rainha”, a nossa vida não pode ser só isto, não é desterro. Somos herdeiros de uma mentalidade, também religiosa e que teve o seu tempo, que nos fez deixar de acreditar no céu que já vivemos aqui. E se não experimentamos já o céu, como é que o podemos desejar? Se não, a encarnação de Jesus não teria tido nenhum impacto na nossa história. Se o próprio Deus esteve e permanece no meio de nós, como é que podemos olhar a vida como vale de lágrimas?


O Evangelho mostra-nos o caminho, neste episódio tão vivo e cheio de momentos, reacções, acções. Convido-vos a parar nesta frase:

“Ao cair da tarde, já depois do sol posto, trouxeram-lhe todos os doentes e possessos e a cidade inteira ficou reunida diante da porta”. Não sei se têm conhecimento, no mundo bíblico, o dia não começa com o nascer do sol, mas começa com o pôr do sol. Já depois do sol posto são “todos” os doentes e “toda” a cidade que estão diante da porta. O novo dia começa com uma reunião de todos diante de uma porta.


O episódio não se refere apenas aos habitantes de Cafarnaúm, naquele dia concreto, mas designa toda a humanidade, na qual nós estamos. A Bíblia não evita o sofrimento, a doença e a procura. A humanidade coloca-se toda diante da porta daquele que tem palavras e gestos poderosos de salvação. A porta dá entrada a uma casa, um espaço de intimidade e de comunhão. É o lugar onde se habita. Entrar no espaço onde Jesus está é encontrar um novo horizonte de vida, é deixar que o próprio Deus toque e cure as nossas doenças, não só as físicas, mas sobretudo as coisas que nos desanimam.


Mais tarde, Pedro encontra Jesus e repete a mesma expressão: Estão “todos” à tua procura. E Jesus responde, vamos às aldeias vizinhas, para aí eu pregar, porque foi para isso que eu vim. Nós procuramos e Deus vem ao nosso encontro. Este Deus que vem aos nossos lugares, às nossas casas, que quer tocar e curar a nossa humanidade, não poderá ser o sinal mais evidente da esperança cristã?


Seremos capazes de experimentar, no nosso desânimo e na nossa falta de horizonte, que é aí precisamente que Deus nos anuncia um gesto novo e uma palavra nova? Mais do que procurar, somos procurados, mais do que perguntar, somos respondidos, mais do que ver somos vistos. 


26 dezembro, 2011

Natal do Senhor (Ano B)

0comentários
“Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos Profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho, a quem fez herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo”. São estas as primeiras palavras que dão início à Carta aos Hebreus. Começa com uma afirmação que nos deveria deixar perplexos, admirados. Desde sempre Deus comunica com a humanidade, através de homens escolhidos, que falam em seu nome. Mas agora, nestes dias, fala-nos por si mesmo, mostra-se, exibe-se. Podemos ver, ouvir, tocar a própria realidade de Deus.

A carta do Apóstolo só poderia começar com o anúncio que define a fé cristã. O próprio Deus está aqui, nasceu para nós, um menino nos foi dado, como nos dizia Isaías na noite passada. A liturgia que celebramos realiza no nosso hoje aquilo que aconteceu no meio da noite em Belém. Uma mulher dá à luz o seu primogénito, envolve-o em faixas e coloca-o na manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.

É ali, num lugar inóspito, perdido nos arredores de Belém, que acontecem os gestos e os rituais próprios do nascimento. Uma mulher que grita com as dores de parto, até que cessam os gritos, faz-se silêncio e ouve-se o choro de um recém-nascido. É o momento mais solene da vida, alguém entrou de novo no mundo, ouve-se um grito de presença. E seguem-se os gestos da ternura da mãe, que limpa, lava, aconchega e embala o seu filho. É tão bonito que o momento fascinante do nascimento se siga de cuidados tão extremos, tão delicados, tão pequeninos.

Os olhos de Maria inclinam-se para o rosto do seu Filho. É um mistério para esta mulher, que vê sair de si o Filho de Deus e agora o contempla com a alegria daquela que deu à luz. Ela conhece a sua origem, não o percebe completamente, mas ali está, sem sombras de dúvida: Este menino, que acabei de dar à luz, é o meu Senhor e o meu Salvador.

Maria não é apenas a mãe biológica de Jesus, como se fosse um simples instrumento da vontade de Deus. Maria representa a humanidade que afirma e concretiza que Deus está no meio de nós, que se aproximou, que se fez íntimo. Na sua liberdade, o sim de Maria é o sim da humanidade que faz gerar o Filho de Deus, que o sente crescer nas suas entranhas até que, finalmente, o dá à luz.

 

E Deus nasce ali, no meio de nós, na pobre gruta de Belém, num canto escondido e esquecido nos arredores de uma aldeia da Judeia. O primeiro contacto de Jesus com o mundo é o olhar da sua mãe, e a ternura dos gestos que o acolhem e recebem. O cuidado de Maria é o cuidado da humanidade inteira que acolhe a extraordinária presença do próprio Deus. E não o acolhe com a solenidade dos grandes acontecimentos do mundo, não há protocolos, não há discursos, não há autoridades civis e religiosas, nem fogo-de-artifício. Deus é recebido com gestos quotidianos e banais, os gestos silenciosos de uma mulher que aconchega o filho recém-nascido.
Deus não teria um modo mais espectacular de aparecer entre nós? Porque é que o Natal é assim? De facto, não poderia ser de outra maneira. Jesus nasce do modo humano e, por ser perfeitamente humano, é perfeitamente divino.

O nascimento de Jesus é a presença de Deus nos gestos amorosos da humanidade. É um convite à adoração da simplicidade da vida, da sua realidade e dos seus acontecimentos mais comuns. Nesta noite, não aconteceu nada de extraordinário, mas, ao mesmo tempo, nada ficou igual. A humanidade passa a ser o lugar da presença definitiva de Deus entre nós, fomos assumidos, completados, transfigurados. Não é possível sermos as mesmas pessoas antes e depois do Natal. A nossa vida é o lugar de Deus, agora e para sempre.

O magnífico prólogo do Evangelho de S. João, lido na liturgia do dia de natal, é um hino à encarnação do Verbo. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós. A tradução portuguesa do termo original grego não é literal. No texto original lê-se: E o verbo se fez carne e estabeleceu a sua tenda entre nós. Estabelecer a tenda, na mentalidade bíblica, significa escolher um lugar onde habitar e aí tornar constante a sua presença. Uma pessoa toma posse desse lugar, e é ali que faz a sua vida de todos os dias.

E Deus fez a sua tenda entre nós, instalou-se na nossa carne, na nossa história, na nossa vida de todos os dias. Está connosco, fala-nos, ouve-nos, toca-nos. Mostra a grandeza da nossa vida, estabelece connosco um diálogo contínuo que transforma o nosso agir de todos os dias no agir de Deus.

Isto é uma maravilha, mas é ao mesmo tempo uma responsabilidade. A nossa vida realiza esta presença? Será que Deus deixamos que Deus estabeleça a sua tenda no nosso coração, nas nossas casas, no nosso trabalho, nas nossas relações, no compromisso com a sociedade?

Ele veio ao que era seu, mas os seus não o receberam. Mas àqueles que o receberam e acreditaram n’Ele deu-lhes o poder de se tornarem Filhos de Deus. Deu-lhes o poder de se tornarem Filhos de Deus. Percebemos verdadeiramente o que isso implica, o que isso pode transformar na nossa vida de todos os dias? 

24 janeiro, 2011

III Domingo Tempo Comum (ano A)

0comentários
As leituras que a liturgia deste Domingo nos apresenta têm como tema central uma novidade enorme. Uma luz brilha nas trevas. É o grande grito de aclamação e alegria presente no texto de Isaías que ouvimos na primeira leitura e que é repetido no Evangelho, quando Mateus começa a narrar o início da vida pública de Jesus. Reparemos num pormenor curioso. O anúncio diz respeito sobretudo ao povo que vive nas trevas, mas esta luz refere-se não só às pessoas, mas também aos lugares: é o caminho do mar, a terra de Zabulão e de Neftali, a Galileia dos gentios. Por isso, vemos que a luz de Deus resplandece em lugares e não só nos corações das pessoas.

Deus cria um ambiente onde nos movemos, a sua presença invade o nosso contexto, os lugares da nossa vida e não fica dependente da possibilidade de nos darmos conta ou não desta presença.

Isto tem como ponto de partida e seu motivo a total iniciativa de Deus que vem ao nosso encontro. Não é por acaso que ouvimos esta mesma leitura no dia de Natal, há cerca de um mês atrás. A manifestação de Deus não fica isolada no menino de Belém, mas é uma manifestação contínua, na nossa vida concreta. A revelação do mistério de Deus não são actos isolados, por muito significativos e centrais que sejam, mas é uma revelação que acompanha cada dia e cada momento da nossa história.

Deus não cessa de, continuamente, vir ao nosso encontro, criando em tudo a possibilidade de o reconhecermos e acolhermos. Porque Deus olha a nossa vida com grande interesse, inteiramente debruçado sobre os nossos assuntos, os nossos problemas, as nossas alegrias e os nossos desejos.

E o que é que isso muda no modo de vivermos a nossa vida? Se formos conscientes de que a luz de Deus brilha na nossa vida, mesmo que tenham momentos de obscuridade e treva, tenho a certeza que isso muda muito, aliás, muda tudo. Uma dificuldade, um sofrimento, são também lugares de manifestação, fazem-nos cair na conta da nossa fragilidade, da nossa dispersão interior e ajuda-nos a centrarmo-nos e a crescermos em coisas fundamentais. Aliás, já temos a experiência de como momentos difíceis da nossa vida nos ajudaram a crescer e a descobrir coisas acerca de nós que antes não sabíamos nem supúnhamos.

O nosso drama é quando tentamos fugir e evitamos confrontar-nos com os desafios que a vida nos coloca todos os dias. Mas se formos conscientes que a luz de Deus brilha no nosso ambiente, então damo-nos conta que esta luz põe a descoberto a nossa verdade, indica-nos um caminho, propõe-nos objectivos que não nos fecham no medo, mas fazem-nos arriscar e caminhar com coração grande e peito aberto.

Para um cristão, a vida e o mundo, com as suas luzes e as suas sombras são a terra onde brilha a luz de Deus, que continuamente nos chama a confiar e fazermos de tudo uma oprtunidade de termos uma vida mais completa.

O anúncio desta luz é acompanhado pelo chamamento dos discípulos que, curiosamente estão a lançar redes ou a consertar as redes. A voz de Jesus que os chama, fá-los deixar as redes, o que seriam as nossas situações que nos amarram, confundem e prendem, e seguem Jesus com prontidão.

O primeiro anúncio de Jesus é este convite a repararmos que o Reino dos céus está próximo, está aqui junto de nós, é a luz que brilha na nossa terra. Se nos dermos conta desta chegada e desta presença do Reino, que é o próprio Jesus, então deixaremos que a luz brilhe nas trevas. A conversão é acreditar no Evangelho, que é a boa notícia da presença de Deus entre nós, que cura as nossas enfermidades, os nossos medos e desânimos, faz-nos viver na confiança.

Deixemos que Jesus nos chame, como a estes discípulos com as redes, sentados à beira do mar. Que o seu convite nos faça levantar e deixar tudo o que nos prende e bloqueia, nos ajude a convertermo-nos, que é olhar numa outra direcção, viver de uma maneira nova, como filhos da luz.



08 dezembro, 2010

Imaculada Conceição

1 comentários

Imaculada Conceição

Temos, na carta de S. Paulo aos Efésios esta maravilhosa expressão: “Ele nos predestinou, conforme a benevolência da sua vontade, a fim de sermos seus filhos adoptivos, por Jesus Cristo, para louvor da sua glória e da graça que derramou sobre nós”.
Estamos predestinados, ou seja, escolhidos desde sempre, para sermos filhos de Deus, através de uma graça derramada. Reparem na intensidade desta expressão. A graça que Deus nos dá, não é deitada com cuidado, como se a deitasse num recipiente, para que não se perca. A graça é derramada, inunda-nos, é muito abundante. De algum modo, somos mergulhados num amor enorme de Deus em relação a cada um de nós.

A solenidade da imaculada conceição é sobretudo uma celebração que nos faz cair na conta da acção da graça de Deus na humanidade. Todos temos a consciência e o sofrimento do nosso pecado, da nossa incoerência e da nossa fragilidade. Mesmo que, na fé, acreditemos que o amor de Deus nos é dado para nos transformarmos à imagem de Jesus, sabemos que estamos muitas vezes longe de sermos o que Deus quer de nós. Mais do que estarmos longe, estamos escondidos e envergonhados.

É o que vemos no episódio do livro do Génesis. Depois de terem comido o fruto que faz de Adão e Eva a humanidade que conhece o bem e o mal, reparam que estão nus, que a sua liberdade os pode tanto aproximar de Deus, como afastar-se d’Ele. É muito significativo que as primeiras palavras que Deus, na Bíblia, dirige ao homem é esta pergunta: “Onde estás?” E hoje também nos faz essa mesma pergunta. Na tua vida, em tudo o que te foi dado a viver, no teu trabalho, nas tuas relações, onde estás? Onde está o teu coração, a tua pessoa? Podemos fazer tantas coisas, mesmo os nossos compromissos mais sérios, sem estarmos verdadeiramente naquilo que fazemos. Ou fazemos porque tem de ser, ou porque nos mandaram, ou porque fica bem. Mas não agarramos a fundo a vida, vamos vivendo como calha, cumprindo. Isto é muito pouco. A pergunta “onde estás” é um enorme desafio, é assumirmos radicalmente, com força, alegria e energia de amor tudo aquilo que nos é dado a viver. Porque é dado é dom, possibilidade de santidade. Os filhos de Deus mergulham, derramam-se sobre a vida, comprometem-se com ela. É isto que fazemos? Onde estamos?

Por isso, faz todo o sentido que o episódio do pecado original tenha como contra-ponto o episódio da anunciação. Maria dispõe-se, apresenta-se: Eis a escrava do Senhor. Ela está ali, não para receber um fardo de uma missão pesada, mas para se pôr completamente à disposição. Eis-me aqui, toda, completa, que se faça.

A liberdade que levou Adão e Eva a esconder-se de Deus é muito diferente da liberdade que leva Maria a estar presente, completamente disponível.

No fundo o Dogma da Imaculada Conceição, isto é, que Maria foi concebida sem pecado original, não é apenas uma regra de fé que devemos acreditar como se não nos dissesse respeito. Este dogma é a convicção que a Igreja tem que a humanidade é capaz de não estar escondida com medo de Deus, atrás de um arbusto, na nudez do seu pecado. É a certeza que cada um de nós é destinado a apresentar-se diante de Deus numa atitude de transparência, como um filho está diante do seu Pai sem medo, porque confia absolutamente no seu amor.

Todos os anos, em Roma, o Papa vai à praça de Espanha fazer uma homenagem neste dia a uma estátua da Imaculada Conceição. O ano passado, pegava na imagem da estátua que está acima da cidade no cimo de uma coluna muito alta: “A cidade è feita de rostos, mas infelizmente as dinâmicas colectivas podem fazer perder a percepção da sua profundidade. Vemos tudo na superfície. As pessoas tornam-se corpos, e estes perdem a alma, tornam-se coisas, objectos sem rosto, capazes de serem trocados e consumidos. Maria Imaculada ajuda-nos a defender a profundidade das pessoas, porque nela existe a perfeita transparência da alma no corpo. É a pureza em pessoa, no sentido em que o espírito, alma e corpo são nela plenamente coerentes entre si e com a vontade de Deus. Maria ensina-nos a abrir-nos à acção de Deus, para olhar os outros como Ele os olha: a partir do coração”.  
É isto que devemos ter em mente e no coração, quando celebramos esta solenidade. Que somos chamados, como Maria o foi, a estarmos presentes com um olhar amoroso sobre a nossa vida. O amor que pomos nas coisas liberta-nos e torna-nos transparentes, podemos ser também esta graça derramada sobre a vida das outras pessoas. Peçamos esta graça através de Maria, invocando a sua intercessão:
Rogai por nós Santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

 

Ao Domingo © 2010

Blogger Templates by Splashy Templates