Que pergunta tonta. O Reino
Unido não está em Schengen como se pode sequer colocar a questão de saber se
vai sair dele?
Todos concordam, todos os
ingleses dizem que estão fora, os meios de comunicação social sabem com certeza
absoluta que Schengen não inclui o Reino Unido.
A questão é a de saber
que por mais esta via estamos numa comédia de enganos.
Foi o Reino Unido forçado a isto? Não. Fê-lo por sua única
e exclusiva iniciativa.
Entendamo-nos. Faz parte de
Schengen no
que respeita aos poderes do Estado, mas não no que respeita aos direitos dos cidadãos.
Absurda argumentação.
Os ingleses estiveram
sempre orgulhoso por não terem os direitos dos outros europeus, quando estavam
sujeitos às mesmas sujeições. Feliz sujeição que se orgulha da falta de
direitos.
Comédia de enganos. E dizemos
nós que vivemos uma sociedade cada vez mais transparente. Goebbels tinha razão,
uma mentira mil vezes repetida torna-se verdade. Este o seu Reino. Os vencedores
encontram-se sempre em cantos insuspeitos. Quando os actores têm baixo coturno
na melhor das hipóteses temos comedia. Mais baixo ainda, apenas farsa.
Em sétimo lugar o islão
foi fragilizado pela ideologia multicultural que imperou na Europa desde os
anos 90 por influência britânica e americana. Precisamente o inverso do que
queriam os cultores do multiculturalismo.
O primeiro passo desta ideologia
foi o de marcar a alteridade absoluta, o de exigir o direito à diferença, à
radical diferença. Hoje em dia, os mesmos que exigiam a radical diferença ao
islão apresentam-se com um discurso mitigado, a típica estratégia do «sim,
mas…». Sim, há crianças de nove anos casadas com homens maduros entre os refugiados
na Noruega, mas…. temos de perceber as circunstâncias. Sim, é feio bater nas
mulheres, mas… temos de perceber outras culturas. Sim, é feio lapidar pessoas,
mas… temos de dar tempo ao tempo. O lobo colocou a pele de cordeiro para nos obrigar
a compreender o inaceitável. A diferença radical passou a ser excepção a valores
que se admitem comuns.
A questão é que esta nova
estratégia deixou de ser credível. Perdeu-se o efeito de surpresa, a
contradicção com o passado fica notória.
O filo-islamismo decorre
de muitos factores. Tudo na vida decorre sempre de muitos factores já o sabemos.
Interesses políticos eleitorais dos trabalhistas ingleses, socialistas
franceses e verdes alemães, interessados em substituir eleitorado popular que
se vira para direita, ignorância das culturas alheias, religiões irénicas de substituição,
herança da ideologia colonial em que os nativos se mantêm nas suas culturas
desde que a segurança não esteja em causa. Há de tudo. Mas em última análise o
filo-islamismo na Europa resulta de uma visão uniforme do ser humano, em que as
diferenças são irrelevantes, em que o homem é um produto industrial
padronizado. A diferença é apenas uma marca comercial, que no fundo em nada
afecta o produto. Comungando todos da mesma natureza, nunca podemos desenvolver
diferenciações substantivas.
Ora foi precisamente esta
ideologia multicultural de origem colonialista britânica que mais prejudicou a possibilidade
da convivência pacífica do islão com a Europa, e dificultou um seu verdadeiro
reforço. Tanto mais abespinhado quanto mais frágil, o islão faz a sua força na
exacerbação… e a sua fraqueza. Se o menino faz birra é sinal de que tem razão.
Até lha deixarem de dar de todo. A injustiça nesse caso começa a ficar do lado
contrário, também ele agastado. Mas neste caso já é tarde demais.
Em suma, muitas as
fragilidades do islão: divisões religiosas e étnicas e geográficas. Cultura
sobre pressão no Oriente e em grau cada vez maior no Ocidente. Cristianizada
internamente de modo inelutável no seu modo de pensar. Sem prestígio cultural.
Confrontado com uma religião que sempre praticou a autocrítica como o cristianismo
e sem ter armas próprias para responder ao ataque crítico. Escorregando cada
vez mais para a alegoria, sempre sinal de religião em fenecimento progressivo. Vítima
de conversões ao cristianismo religioso, prático ou ao ateísmo de base cristã. Fragilizado
e desautorizado pelo multiculturalismo que lhe deu visibilidade pela primeira
vez na Europa. Visibilidade que lhe mostra as fracturas.
Há uns simplistas que dizem
que islão está a morrer. Por dentro, demograficamente, por a religião que mais
cresce no mundo ser o cristianismo, sobretudo na sua versão evangélica. Desconfio
de estatísticas apressadas. Mas se o islão nasceu também por ensinamento
cristão mal assimilado está agora a forçar-se à mudança sem conseguir de novo assimilar
a aprendizagem do cristianismo. Dilema trágico: ou o assimila dissolvendo-se,
ou o recusa fragilizando-se ainda mais. O seu destino político, apenas político (desafio algum leitor a
que em diga ter lido algum manual de teologia islâmica que o tenha esmagado
pela sua grandeza cultural) é uma manifestação da sua fragilidade intrínseca. Sem
a vitória política condena-se aparecer nu perante o espírito europeu. Aparece o
que sempre foi. Deixo a valoração para o leitor.
A fragilidade religiosa
agudiza-se pela pobreza da exegese islâmica não habituada a confrontar-se com a
crítica. Dois exemplos.
Na tradição islâmica Cristo
não morreu na cruz. Ora os testemunhos mais próximos dos factos são unânimes.
Houve um Jesus que morreu na cruz. Bem sabemos: a ideia muçulmana terá vindo de
uma heresia, o docetismo. Em geral, cada vez mais percebo que o islão e o cristianismo
se comunicam apenas entre heresias. As suas vias de comunicação nascem de deformações
geométricas. Os sufis geram a admiração na Europa, os dissidentes cristãos
foram mais fundamentais para o islão. Apenas mostra a imensa diferença das religiões.
As boas regras de crítica histórica indiciariam que a versão muçulmana é falsa.
O risco de falsidade histórica inquina as suas fontes.
O segundo exemplo é mais intrinsecamente
religioso: o caso das houris, o das
setenta e duas virgens. Perguntamo-nos: porque se mantém virgens? Se são seres humanos,
quer dizer que há seres humanos cuja vida é meramente instrumental para os mártires,
que não é fim em si mesmo? Ou trata-se de bonecas insufláveis, de meros autómatos?
E qual a recompensa das mulheres mártires? Deveriam tornar-se lésbicas para
fruírem de tal recompensa? A questão não é caricata. Prende-se com toda a
oferta escatológica. E são problemas que os próprios muçulmanos começam a
colocar.
A versão do paraíso
islâmico é muito terrena, bem o sabemos. Mas também bem sabemos, entra aqui a interpretação
alegórica. O que se pretende com estas imagens é reflectir a felicidade no paraíso,
etc. etc. Seja. Mas a interpretação alegórica é, como a experiência pagã o
demonstrou, simultaneamente um sinal de apego e de fracasso. Os deuses do Olimpo,
os episódios do Antigo Testamento carecem de interpretação alegórica. Não as parábolas
do Novo. Necessitar de uma interpretação alegórica significa diluir o mito
original na construção teórica, até a força original se dissolver. A
interpretação alegórica pode resistir séculos. No caso grego resistiu mais de
mil anos. É certo, mas com os custos de uma dissolução cada vez maior da religião
grega sob o peso da interpretação. Porfirio, Jâmblico, Proclo e Damáscio são
bons exemplos disso.
Podiam-se multiplicar os exemplos.
Discutir num cenário de televisão durante horas as maravilhas de um profeta que
se casa com crianças ou manda matar pessoas, ou os exemplos múltiplos de uma História
islâmica que tem violências sem fim (todas as Histórias têm), mas que não reconhece
a sua natureza violenta, ao contrário do que, por influxo cristão, a Europa
reconheceu, são tantos outros exemplos de que a cultura islâmica passa mal por crivos
civilizacionais mais exigentes, aos olhos europeus, pelo menos. Todas as
culturas são violentas. A cristã reconhece que o foi e é. A islâmica não. Essa
a diferença. Escolha-se entre as duas. Mas esses olhos europeus são olhos de
pessoas que vieram de culturas muçulmanas também, e vivem na Europa ou alhures.
A isto se tem de acrescentar
um sexto factor de fragilidade não muito referido, este no âmbito da sociologia
das religiões. As conversões ao cristianismo, geralmente mais secretas, por
força da pressão social em relação ao convertido, pressões que a Europa tolera
com bonomia.
Há conversões de
muçulmanos ao cristianismo que não são despiciendas. Não controláveis, sem estatísticas
fiáveis, é um factor silencioso, que não pode ser descurado. O sincretismo prático
também se observa, nomeadamente em regiões como Marselha, como é típico das
sociedades que se vão tornando mestiças. E a este acrescenta-se a indiferença
religiosa, o agnosticismo e o ateísmo. Também por influência da Europa. Perigosa
estratégia o dos muçulmanos que querem uma invasão de muçulmanos na Europa. Correm
o risco de criar novos cristianizados, ou mesmo cristãos.
O islão é fragilizado
pela cultura europeia e não apenas na Europa. De natureza já está dividido
religiosa e étnica e politicamente. Sob o ponto de vista geoestratégico é uma
cultura sobre pressão, tanto quanto se pretende expansiva. Sob o ponto de vista
religioso é marcado pelo cristianismo nas suas categorias e linguagem, dissolvendo
em parte a sua identidade ou abespinhando-a. Sendo religião sem prestígio cultural
e confrontando-se com a cultura mais criativa do mundo, tanto mais quanto menos
se afirma com tal, o islão faz figura de parente pobre e subdesenvolvido do cristianismo.
Sem História sólida de auto-crítica, sujeita-se a ser criticado por instrumentos
que não criou nem domina e que têm um efeito dissolvente das suas bases. Fragmenta-se
como crença, perde adeptos assim como os ganha, mas sempre num ambiente que tende
a dissolver a sua força interior.
Mas esta fragilidade
cola-se a uma quinta a ela associada. A própria religião encontra-se em
confronto com o cristianismo na Europa, sobretudo. A crítica ao cristianismo não
foi importada. Não chegaram à Europa, muçulmanos, budistas ou hindus, e descreveram-nos
as múltiplas contradições ao cristianismo. Se queremos ver uma análise profunda,
e uma demolição estruturada do mesmo, é através do pensamento europeu que a
temos de procurar. Essa é paradoxalmente a força do cristianismo. Sob o ponto de
vista intelectual saiu bem mais forte dessa discórdia, até porque os principais
críticos eram cristãos, não apenas de cultura, mas de igualmente de fé. Esse exercício
de crítica permitiu libertar a fé do folclore, do traço etnológico que ainda
sobrava, da marca histórica meramente acessória. A argumentação está preparada,
é robusta, habituada a uma crítica que nasceu dentro do cristianismo. Se é
ouvida ou não, é questão que tem mais a ver com a cultura de cada qual. Mas
existe e é sólida.
O cristianismo não
começou a ser criticado com a Reforma, ao contrário do que o vulgo pensa. O cristianismo
já nasceu criticado. Celso ou Porfírio ou Juliano são anteriores à vitória do cristianismo.
E são os mesmos que defendem o cristianismo que nos preservaram os que o
criticaram. É através dos autores ortodoxos que podemos hoje em dia reconstruir
as obras dos autores pagãos que criticaram o cristianismo. Mas, não menos importante,
o cristianismo desde a origem conhece bem as suas fragilidades. Não é exemplo
do grego perfeito, nem da cultura perfeita. São Jerónimo bem o sabia. O cristianismo
desde o seu nascimento que sabe não ser expressão cultural perfeita.
Já o islão se critica a
si mesmo apenas pelo confronto com a cultura cristã. Os muçulmanos vêem que se
vive melhor na Europa que em qualquer país islâmico. Basta ver os que fogem
através da Turquia e não querem nela parar, e tanto mais habilitados, mais esclarecidos,
mais fogem da Turquia, grande país muçulmano e dito europeu por tantos, mas que
afinal não ilude os mais capazes. Não sou eu a dizê-lo, mas outros muçulmanos
que com convicção viram o traseiro à Turquia. O islão careceu da cultura cristã
para aprender a auto-crítica. Não lhe inere, vive-a como postiça e modo
trôpego.