A MEMÓRIA E O SOPRO DA VIDA
Parasceve trans-figurado
Numa tradição que já vem de longe, uma vez mais uma artista plástica cria um conjunto de obras a partir do Texto de Llansol. A lista desta interacção entre palavra e imagem é longa, com nomes como Ilda David', Julião Sarmento, Pedro Proença, Rui Chafes, Duarte Belo, Graça Martins, Juju Bento... E agora, na sesão pública de sábado, a artista brasileira Debora Censi, com duas séries de obras, pintura e desenho.
Debora Censi é um artista visual brasileira (São Paulo) que realizou os trabalhos apresentados (e reproduzidos, com textos de Llansol, no caderno feito para a sessão), inspirados na Obra de Maria Gabriela Llansol, com destaque para o livro Parasceve. Puzzles e ironias, durante a 4ª Residência Artística Taguspark (em Oeiras), entre Janeiro e Abril deste ano. Estas obras dão continuidade a uma prática de pintura sobre papel, centrada na construção de paisagens e arquitecturas inexistentes através de camadas e transparências, num processo de «sobreimpressão» que evoca o conhecido método de escrita de Llansol. Desde 2023 que a literatura integra o seu processo criativo, servindo de ponto de partida para as suas pinturas e desenhos.
João Barrento começou por fazer uma introdução ao livro-fonte destes trabalhos, destacando, no percurso da figura da Mulher que atravessa todo o livro num «processo de individuação» original, o significado das figuras, lugares, objectos e temas/motivos escolhidos pela artista, e que a leitura da actriz Eva Dória no final foi dando a ouvir em fragmentos extraídos do livro Parasceve, a começar pela figura condutora da Mulher em busca de si, e continuando com o dicionário que começa na p. 33; o plátano de seu nome Grande Maior (a cidade-árvore de Parasceve); o vaso quebrado que representa toda uma nova teoria estética dos fragmentos; o lobo no quarto de arrumos, que incita ao sonho e à alegria; o corvo amarelo, portador do saber do Tratado da Reforma do Entendimento, de Spinoza; a criança-ruah, símbolo puro das origens que a Mulher busca, «decepando a memória»; o piano móvel que transporta consigo a música da grande polifonia da vida que ultrapassa a autobiografia e anuncia uma biografia futura; com o percurso a terminar À beira do rio da escrita, na mais-paisagem da ponte que a Mulher atravessará...
Para Llansol, a árvore se apresenta como acontecimento, como presença. É a existência plena e, principalmente, livre de autobiografia.
Os desenhos são basicamente de troncos e galhos, árvores invernais, estação predominante no livro. É a estrutura que se sustenta no torpor até o início do florescer. É Parasceve..jpg)



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