segunda-feira, 21 de abril de 2014

MINUTO

                                                                      Foto: Aline Monteiro


Quantas vezes disse

que este seria o

teu último verso...

Li o poema do

século passado

Detestei a formalidade

pra sofrer...

A ênclise me

tirando a concentração

ao desviar o sentimento

à direção contrária

do que se dizia

no começo

Mereço um prêmio

se conseguir chegar

até o fim...

O século passado

acabou de acabar

faz um minuto...


                                                              Aline Monteiro




"Se eu tiver coragem de dizer que eu meio gosto de você
Você vai fugir a pé?"
(Macaé - Clarice Falcão)

domingo, 24 de novembro de 2013

Autorretrato



Se me olho te vejo

Um poema de encantamento

Me veste a alma


                                                         Aline Monteiro




"Amor pra mim é ser capaz de permitir
que aquele que eu amo exista como tal,
como ele mesmo.
Isso é o mais pleno amor.
Dar a liberdade dele existir
Ao meu lado
do jeito que ele é"

(Adélia Prado)

domingo, 13 de outubro de 2013

Passagem

                                                  Foto: Aline Monteiro


Eram asas

Abertas para

O tempo

Havia cor

Havia ritmo

Câmera lenta

Eram raios

Refletidos

No azul-bebê

Do céu

Havia cheiro

Havia mãos

Havia lenda

Havia o verso...


                                                                     Aline Monteiro



"Porque se chamava homem
Também se chamavam sonhos
e sonhos não envelhecem
Em meio a tantos gases
lacrimogênios
Ficam calmos
calmos, calmos
E lá se vai mais um dia..."

(Clube da Esquina II - Flávio Venturini)

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

De alma pra alma



Sussurrado no escuro
Um poema na surdina
Junta tua alma e a minha


                                                                                Aline Monteiro


"Você supõe o céu"
(Além do que se vê - Marcelo Camelo)

domingo, 23 de junho de 2013

Poema Para Ouvir



Meu poema a ti

Não se veste de inteligências

Culturas congeladas

Gramaticais certezas...

O meu poema a ti

Desobedece ordens

Se deixa levar evolução a fora...

Ignorâncias à parte

O meu poema a ti

erra feliz...


                                                   Aline Monteiro



“Sou homem: duro pouco

E é enorme a noite.

Porém olho para cima:

As estrelas escrevem.

Sem entender compreendo:

Também sou escritura

E neste mesmo instante

Alguém me soletra.

(Otávio Paz)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Além do que se vê

                                                                   Foto: Aline Monteiro


Amar-te é atirar-me

Num abismo de flores

Queda-livre de toda certeza...

Mas se sei o passo não anda

Saber é seguir moda, procissão...

Amo-te na escuridão

Além e aquém do que se vê...



                                                    Aline Monteiro



"Mas você me chama pro mundo
E me faz sair do fundo de onde eu tô de novo"
(Vermelho - Marcelo Camelo)

terça-feira, 7 de maio de 2013

Entre Linhas



Um poeta me abriu os olhos

Tocou de leve minhas mãos

Me arrebatou a alma e as cordas vocais

Me fez acreditar nas linhas

Do meu corpo que se estendiam

Às do caderno

São belas, dizia

Um poeta me abriu a voz

Me devolveu as flores,

O rumo, as malas...

Me fez dizer palavra escrita

Me fez dizer palavra falada

Cantada, encantada...

Um poeta me abriu os poros

Abriu a torneira que pingava...

Um poeta me inundou de versos...



                                                         Aline Monteiro



“Entrar na Academia já entrei

mas ninguém me explica por que que essa torneira

aberta

neste silêncio de noite

parece poesia jorrando...”                                                                        

(“Cabeludinho” – Poemas concebidos sem pecado – Manoel de Barros)

sexta-feira, 26 de abril de 2013

16 de Setembro



Quando nasci um anjo bobo

Vestido de arlequim disse:

-Vais fazer da palavra teu carnaval de versos

Vais colorir de vermelho-alaranjado o pôr-do-sol

Que anda desbotado de telespectadores

Vais fotografar sorrisos, desses que escandalizam

De tanta beleza

Vais explorar a linguagem ao invés da gramática

Porque linguagem é roupa e não cabide

E toda vez que disserem

Jogando palavras tortas ao vento

Insinuando descaradamente que a forma

É mais importante que o sentimento

Abrirás tuas alas

Espalhando feito confete e serpentina

A tua poesia na avenida

Cantando nas marchinhas os poetas preferidos:

Aqui estão os meus padrinhos

Que iluminaram o meu caminho

Adoçaram meu cotidiano

E me inundaram de possibilidades!

Quando nasci

O anjo-arlequim

Brincou junto comigo

Meu carnaval de versos!



                                                               Aline Monteiro



"Quando nasci era um dia amarelo

Já fui pedindo chinelo

Rede café caramelo

O meu pai cuspiu farelo

Minha mãe quis enjoar

Meu pai falou mais um bezerro desmamido

Meu Deus que será bandido

Soldado doido varrido

Milionário desvalido

Padre ou cantor popular

Nem Frank Zappa nem Jackson do Pandeiro

Lobo bom ou mau cordeiro

Mais metade que inteiro

Me chamei Zeca Baleiro

Pra melhor me apresentar"


(Vô Imbolá - Zeca Baleiro)

Tempo Achado

                                                                                         Foto: Aline Monteiro


Tempo ruim é aquele

Que a gente aproveita

Tempo bom

É aquele que a gente perde...



                                                                     Aline Monteiro




"Todos os dias quando acordo
Não tenho mais 
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo..."
(Tempo perdido - Legião Urbana)

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Liberdade



A palavra é a minha voz

Sou eu quem segura as rédeas

Mas é sob a palavra que caminho.



                                                            Aline Monteiro




"Porque sou humano e creio no divino da palavra"
(Credo - Elisa Lucinda)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Serenata



Não tenho voz que te alcance

Meu amor em serenata desafina

Por isso escrevo,

Componho um verso

Que delira...

Até virar canção em tua boca...




                                                      Aline Monteiro





“a poesia deste momento inunda minha vida inteira”

(Poesia – Carlos Drummond de Andrade)

domingo, 14 de abril de 2013

Dois em Um



É hoje que desisto da poesia

Essa fonte doce e amarga

De sentidos...



                                                           Aline Monteiro



“Não ser é outro ser”

(Fernando Pessoa)

sábado, 13 de abril de 2013

Deste Lado

                                                                    Foto: Aline  Monteiro


Não sei o que há do outro lado

estico o pescoço,

Olhos por cima do muro

Um horizonte microscópico

É uma música estrangeira

Tocando em meu país Tupiniquim

Rebeldia violenta

Palavras agressivas

Sem raiz etimológica

Linguagem e corpo

Sinais que não se correspondem...

Deste lado

O lado que me cabe e que me expande

Não há nada

Teoria, partitura...

Apenas um horizonte

Esticado, e muito bem esticado, por Bernardo

A estúpida e bela Maria-sem-vergonha

Descrita por Elisa

O ex-voto de Adélia

A canção eterna de Cecília

Irene entrando no céu

O Jesus-Menino de Fernando

A jabuticabeira de Vinícius

As cerejas e engrenagens de Alice

A menina bordada de Marcelo

E a janela sempre aberta

De Mário

Me salvando constantemente

Do afogamento.



                                                                  Aline Monteiro





“Todas as coisas cujos valores podem ser

Disputados no cuspe à distância

Servem para a poesia”

(Matéria de poesia – Manoel de Barros)

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Encontro



Em uma noite muito quente nos encontramos

Sentamos à mesa posta na calçada

À beira da rua

Rio de carros correndo apressadamente

Para o dia de amanhã

Em meio à conversa

A chuva forte e inesperada

Falava sobre ventos passados...

Saudades vorazes...



                                                                   Aline Monteiro



“e se choro

Choro baixo e ninguém vê

Minha lágrima de sal

De saudade de você”

(Olhos claros – Eliakin Rufino)

terça-feira, 9 de abril de 2013

Planos Para o Futuro



Olha, preciso te contar

Dizer que não tem jeito não

Eu te amo, criatura!

Assim como a poesia ama a palavra!

Já conseguiu imaginar uma sem a outra?

Pois é, eu era palavra solta, sem contexto

E você meu doce pretexto de existir

E dar sentido a tudo o que digo

Mas sabe aquela interrupção quando a gente fala?

Sabe aquele ruído?

Sabe quando alguém passa em frente à TV

Bem no exato momento do gol?

Sabe aquela lágrima?

Aquela de saudade

Mas não é qualquer saudade não, viu?

Digo aquela saudade

De quando viramos as costas um pro outro

Sem combinar o que jantaríamos no dia seguinte...

Foi aquela dita lágrima

Ordinária de tanta beleza, gota salgada

Transeunte na cor de tua pele

Estrela cadente num céu infinito

A minha interrupção, a minha palidez

A minha mudez, a minha insensatez...

Olha, preciso te contar

Não tem jeito...

Eu sou a palavra,

E você o meu contexto

O contexto, amor!


                                                                         Aline Monteiro



“Me traz o seu sossego

Atrasa meu relógio

Acalma a minha pressa

Me dá sua palavra

Sussurra em meu ouvido

Só o que me interessa”

(É o que me interessa – Lenine)

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Menina Bordada



Ando bordando planos em teu travesseiro

Mesmo sem te conhecer ainda...

Bordados andam também meus sonhos

de te imaginar,

Desejar minúcias ao teu lado...

Já começo a escutar tua vozinha

A derreter meu coração-manteiga

De tia mais coruja do mundo:

- Tia, o que é isso? Tia, lê pra mim? Tia, o que tá escrevendo?

E enquanto tua voz não chega

Pra eu carregá-la no colo do meu poema

Bordo planos em teu travesseiro,

Escrevo teu nome em meus sonhos...



                                                                 Aline Monteiro




“Tudo que eu fizer vai ser pra ver aos olhos dela, vai sobrar carinho se faltar estrada ou carnaval”

(Ôo – Marcelo Camelo)