Canção da ninfomaníaca Cigarras avisam teu corpo para a tempestade. Não sabes conduzir:
jorras. Música para conter o sangue, este solo de palavras boca a boca, para a arritmia em pelo, brasa contra brasa: solo para incandescer sem sufocar.
Esta é mesmo a minha arte: música conforme à dança, no crescendo da tua garganta, música para suportares a vazão da tua ebulição, para o desejo caber no corpo,
vulcão
aos goles da própria lava: foder os teus excessos
(o atrito gera contradanças
de pimentas machucadas), consumir o que passar dos teus limites, vigiar o ponto de angústia,
evitar
que a água te atropele, que vire aflição,
ansiedade-chateação, impedi-la que descompasse sobre mim, exasperando os fluidos, dança de timing,
essa minha, represar, liberar, dosar, induzir, conduzir, e teu corpo cante até rachar sem uma poça, um nódulo de agonia.
E, então, essa especialidade: o silêncio. Oitocentos compassos de silêncio.
Canção da ninfomaníaca (2)
No instante vicioso
- a ânsia,
o risco do teu desejo
agastar o tempo -
estalar a palavra.
Canção da ninfomaníaca (III) O desejo queima ainda uma vez - ao atravessar os
olhos - e para de gritar.