Michel Laub

Verão na Névoa

Meu novo livro, Verão na Névoa, meu primeiro de não-ficção, acaba de sair pela Companhia das Letras e está à venda em todas as livrarias e sites. Sinopse:

O que a obra de Renato Russo, artista romântico que morreu precocemente, teria a ver com a de J. M. Coetzee, cerebral e octogenário vencedor do Nobel de Literatura? Partindo dessa pergunta inusitada, Michel Laub escreve um misto de ensaio cultural e memória que trata de temas como o desejo, a passagem do tempo e a morte.

O fio condutor do relato é a relação do com as drogas, em especial a cocaína. Os impasses daí surgidos moldam um livro breve e corajoso, que ironiza elementos da psicanálise e das narrativas de superação, sem deixar de incorporá-los. Numa época de incertezas trazidas pela tecnologia e pela política, Verão na Névoa é uma resposta possível ao cinismo e à melancolia.

Fim de semana

Um disco – Spontaneus Music Live, SML.

Um disco de 1976 – Cat, Hiroshi Suzuki.

Um filme – Em Trânsito, Christian Petzold.

Outro – Nouvelle Vague, Richard Linklater.

Um depoimento – Mircea Cartarescu no Lousiana Channel (aqui).

Sobre rosas e cães

O tom áspero do livro dialoga com a biografia da autora, que é travesti e narra uma vida tumultuada. “Ouvia como minha mãe mentia por causa do mistério de sua filha”, ela escreve lembrando da infância pobre num vilarejo rural. “Ouvia a música da sua tristeza e o cair de uma palavra dentro da outra, como passos num salão vazio, minha mãe falando: eu te dou as palavras, te dou a língua na falta de riqueza, na falta de um sobrenome que te proteja, na falta de um pai que te ame. Eu te dou esse jeito de falar. Quando chegar a hora, ateie fogo e faça desaparecer”.

Camila aprendeu cedo que “o sexo é uma servidão ou uma ditadura”. Esse é o tema para o qual converge a maioria dos episódios contados, entre eles uma iniciação incestuosa e vários abusos sofridos. Mas a proposta de A Traição… não é a de fazer um inventário ressentido de dores, e sim transitar na zona misteriosa em que a dor se transforma em algo sublime na forma e na substância. “Que a minha escrita continue na elipse”, ela diz logo na primeira página, referindo-se a um paradoxo apenas aparente da prosa que flerta com a poesia: a omissão, o corte que inflama e potencializa a natureza daquilo que se quer dizer. 

Nesse incêndio, que é um ato de desaparecimento/renascimento, a declaração de amor às palavras se alimenta do confronto. É uma beleza nascida de lugares que só a originalidade da autora – sua consciência sobre o trauma e as delícias de ser quem é – poderia visitar: “minha infância foi coberta por seus mijos (…), bolhas, mica, ferro e os insetos que escaparam do dilúvio”; “meu harém não se parece com a plenitude, mas com um campo de extermínio”; “a semente dentro de mim busca a espada, adora que atravessem sua carne esponjosa, o doce fervente com que cozinha seu próprio mundo”; “cada amante se atira sobre mim para me devorar, mas quem tem o focinho ensanguentado e o ventre cheio sou eu”.

Trecho de texto sobre Aos Pés da Letra, de Gregorio Duvivier, e A Traição da Minha Língua, de Camila Sosa Villada, publicado no Valor Econômico, 12/6/2026. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma exposição – Vivian Caccuri, CCBB.

Um curta – Meeting the Man: James Baldwin in Paris, Terence Dixon.

Um longa – Father Mother Sister Brother, Jim Jarmusch.

Uma entrevista – Colm Tóibín no Fashion Neurosis.

Um livro – Lacunas, Felipe Charbel (Relicário, 128 págs.).

Fim de semana

Um filme – O Mestre e a Margarida, Michael Lockshin.

Outro – Blue Moon, Richard Linklater.

Uma exposição – Thix, Galeria Triângulo.

Outra – Sheroanawe Hakihiiwe, Fortes D’Aloia & Gabriel.

Uma série – The Pitt.

Fim de semana

Uma série de filmes – Cremaster, Matthew Barney.

Um filme – Peter Hujar’s Day, Ira Sachs.

Uma ópera no Municipal – Intolleranza 1960, Luigi Nono/Nuno Ramos.

Uma entrevista – Beatriz Bracher no 451 MHz.

Um livro – Apesar dos Meus Ossos Roídos, André Viana (Todavia, 264 págs).

O nó do canibal

(…)

Uma ilustração dúbia dessa ideia está em O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme, que está fazendo 35 anos. Baseado num romance de Thomas Harris, esse clássico do cinema moderno fala de uma estudante da academia do FBI (Clarice Starling, vivida por Jodie Foster) que vira protagonista na caçada ao serial killer Buffalo Bill (Ted Levine) e para tanto conta com a ajuda de outro serial killer, o psiquiatra Hannibal “The Cannibal” Lecter (Anthony Hopkins).

Revendo o filme na Amazon Prime, até em detalhes singelos me espantei com a passagem do tempo: quando alguém comenta algo ocorrido “por volta de 1980”, por exemplo, está falando de um passado relativamente próximo. O Silêncio… estreou em 1991, num mundo pré-internet de massas, recém-saído da guerra fria, no auge da crise da aids. Foi uma época em que a psicanálise, fenômeno característico do século XX, gozava de um prestígio que no XXI deixaria de ter em grande escala – por causa dos avanços da neurociência, da medicalização crescente promovida pela indústria farmacêutica, da desconfiança que o iluminismo (do qual o tratamento pela palavra é herdeiro) passou a gerar na cultura do Ocidente (às vezes até por bons motivos, em outras pelos piores possíveis).

Daí ser datada a abordagem de Demme, e aqui uso o termo mais em sentido documental que negativo. Lecter reúne vários clichês do “personagem redondo” cuja complexidade se funda em contradições: a par de literalmente comer pessoas, ele é gentil (sua relação com Clarice é paternal), tem interesses elevados (música, desenhos, vinhos), enxerga mais longe que os encarregados da vida dita normal na sociedade (o chefe da instituição onde ele está preso, interpretado por Anthony Heald, é uma figura medíocre e asquerosa). Na lógica interna da trama, esses traços formam o carisma de um anti-heroi inusitado, cujo superpoder é resolver à distância aquilo que a expertise do FBI tateia às cegas.

Sob a luz da proposição de Cronenberg, O Silêncio… tem duas dimensões investigativas. A externa emula a engenhosidade de Agatha Christie num de seus melhores livros, Os Crimes do ABC, cuja resolução de uma série de crimes passa pela mesma lógica que acaba revelando quem é Buffalo Bill. Já a interna mergulha nas motivações às vezes nebulosas dos personagens: a própria Clarice é analisada por Lecter em cenas meio risíveis por seu freudianismo ligeiro.

Ao final, o resultado poderia se afundar numa pretensão de boteco, ou no máximo virar uma história policial ok, mas a arte tem seus caprichos e Demme os aceita com generosidade. Cada elemento do filme tem algo de sugestivo, criando uma atmosfera de ameaça que nunca sucumbe à vulgaridade de ser esclarecida: isso está nas cores acinzentadas de bosques e pântanos, na trilha sublinhando planos que mostram fotografias antigas, nas legendas com nomes das cidades onde algo aconteceu ou vai acontecer. Está no suor de um moletom, no sangue de um corte sob o tecido de uma calça, na linguagem corporal de Jodie Foster e Ted Levine.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 15/5/2026, sobre psicanálise, o livro Conversas Infinitas, de Mariano Horenstein, e O Silêncio dos Inocentes. Íntegra aqui.

O prazo do milagre

A primeira tentação ao escrever sobre as 784 páginas de Solenoide (2015), do romeno Mircea Cărtăresco, cuja recente edição brasileira saiu pela Mundaréu com uma excepcional tradução de Fernando Klabin, seria entrar no modo crônica. Eu teria algo a dizer, de fato, sobre as muitas horas que passei com o romance numa viagem, num restaurante onde gosto de almoçar sozinho, numa poltrona sob o olhar de um cachorro caprichoso e ciumento. O tamanho de uma narrativa ficcional por escrito cria seu tempo próprio, decorrente de uma relação de idas e vindas entre quem lê e aquilo que é lido: no meu caso, ao longo de uns três meses em que por vezes me dediquei bastante à tarefa, e em outras abandonei-a por cansaço, ou porque tinha outros compromissos de leitura, ou porque é bom fazer pausas que nos façam absorver a densidade oferecida por uma prosa como a de Cărtăresco – e não submeter seu resultado à lógica de consumo e descarte a que tristemente nos acostumamos.

Outra opção seria falar de aspectos políticos do livro. Afinal, Solenoide se passa na Bucareste dos 1980, nos estertores da distopia comunista. A trama fala de um poeta fracassado que gasta os dias dando aulas no ensino fundamental, e em paralelo se entrega a memórias, descrições de sonhos, devaneios numa casa que diz ter sido construída sobre um dispositivo ­que gera um efeito eletromagnético peculiar. Esse caráter às vezes onírico, ou levemente acima do que seria o tom de uma ficção verista, poderia ser ligado a características do velho realismo mágico latino-americano – como se sabe, um movimento ou gênero que desmascarava a suposta normalidade da vida sob as ditaduras do período.

Solenoide tem algo dessa herança, e algo do também velho alto modernismo, com ­suas ambições de dar conta dos sentidos de um mundo sem sentido. O narrador é uma máquina de fabulação, com um fôlego infinito para criar histórias dentro de histórias, assuntos dentro de assuntos, num registro em que a digressão horizontal ­– feita de ambientações, montagem de cenas, imagens que se sustentam de maneira autônoma – convive ou se funde com a percepção vertical – pequenos insights, grandes ideias, mergulhos numa autoanálise honesta e ao mesmo tempo colorida pelas maravilhosas mentiras da prosa literária.

Os temas que permeiam o romance vão da natureza dos piolhos à mecânica das posições sexuais, da vida de Jesus Cristo às regras gramaticais do romeno, passando por guerras, ciganos, pintura e urbanismo, e por pijamas, inveja, comida e suicídio, e por futebol, paternidade, plantas e hospícios, e pelo uso de drogas, e pelo compromisso de escrever um diário, e pelos traumas de infância, e por certos métodos de levitação. Mas, por óbvio, tudo diz mais de quem está falando do que daquilo que é falado: talvez por influência de minha condição de ficcionista, meu palpite é que Cărtăresco escreveu influenciado por questões de base do próprio ofício.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 30/4/2026. Íntegra aqui.

Egopress

Neste sábado, 6/6, às 14h20, estarei no Tablado Bubu, parte da programação da Feira do Livro de SP, conversando com Roberto Taddei e Alice Sant’Anna.

Fim de semana

Um livro – A Traição da Minha Língua, Camila Sosa Villada (Fósforo, 88 págs.).

Uma HQ – Na Sala dos Espelhos, Liv Strömquist (Companhia das Letras, 168 págs.).

Um filme – Fanon, Jean-Claude Barny.

Um podcast mais amplo – Fanon no History of Ideas.

Um disco de 1964 – Charles Mingus Sextet with Eric Dolphy.

Fim de semana

Um livro – The Flame, Leonard Cohen (FSG, 278 págs.).

Outro – Aos Pés da Letra, Gregorio Duvivier (Companhia das Letras, 192 págs.).

Um filme – The Drama, Kristoffer Borgli.

Outro – A Graça, Paolo Sorrentino.

Um disco – Iconoclasts, Anna von Hausswolff.

Fim de semana

Uma exposição em Buenos Aires – Olga de Amaral, Malba.

Outra – Argentina x Espanha, Bellas Artes.

Uma em SP – Pedro Paulo Leal, Pinacoteca.

Uma montagem – Na Sala dos Espelhos, Michelle Ferreira, Maíra de Grandi e Carolina Manica.

Um livro – Conversas Infinitas, Mariano Horenstein (Quina, 352 págs.).

Egopress

– Meu novo livro, Verão na Névoa, misto de ensaio e memória, sai no fim de abril pela Companhia das Letras e já está em pré-venda. O lançamento em São Paulo será no 27/4, às 19h, na Livraria da Travessa da Rua dos Pinheiros.

– No 25/4, às 12h, estarei numa das mesas da FLAC, em Curitiba, também lançando o livro numa conversa com Pedro Guerra.

– Entre 4 e 7 de maio estarei na Feira do Livro de Buenos Aires. Participo de uma mesa no dia 4, às 19h, ao lado de Nona Fernández (Chile) e Horacio Castellanos Moya (El Salvador), e de outras atividades ainda a confirmar.

– Cinco textos meus são citados em Uma História da Literatura Brasileira, de Regina Dalcastagnè, livro recém lançado pela Todavia: os romances O Segundo Tempo, Diário da Queda, Solução de dois Estados e Passeio com o Gigante, além do conto Animais.

Várias obras minhas aparecem em ensaios de Carlos André Moreira, Jandiro Adriano Koch, Elisa Henkin, Regina Zilberman, Diego Grando, Gabriela Fernanda Cé Luft, Karina de Castilhos Lucena e Sérgio Bandeira Karam publicados na História da Literatura do Rio Grande do Sul, coleção em seis volumes escrita por vários autores e organizada por Luís Augusto Fischer. Lançamento da editora Coragem.

– Tese de doutorado de Sileyr dos Santos Ribeiro, da Universidade Federal do Espírito Santo, com o título Barbárie e memória em Michel Laub: uma leitura da obra Diário da queda. Acesso por https://encurtador.com.br/DkgL

– Dissertação de Mestrado de 2019, escrita por Marcela Penaforte Fernandes e defendida no CETEF-MG, com o título De Costas no Chão: Memória e Esquecimento em Diário da Queda, de Michel Laub. https://encurtador.com.br/xLIr

Tese de doutorado de Marcelo Andrade Viana, da Universidade Federal de Minas Gerais, 2017, com o título de Ressonâncias do trágico no campo contemporâneo: uma leitura a partir de Diário da queda, de Michel Laub. Acesso por https://encurtador.com.br/nuft

– Artigo de Cristian Silveira, com o título O Ensaístico em Diário da Queda, de Michel Laub, publicado na revista Letrônica, da PUC/RS. Acesso em https://encurtador.com.br/EksF

– Resenha de Solução de dois Estados, por Leonardo ACZ, no Substack: https://encurtador.com.br/ptQX

– Voltei a fazer leitura críticas de originais. Quem se interessar, me escreva no laub.michel@gmail.com

O x do declínio

Sempre desconfio de resumos sociológicos e culturais sobre gerações, ainda mais considerando diferenças – de classe, gênero, nacionalidade e assim por diante – em meio a grupos humanos tão grandes. Mas alguns fatos são objetivos nesse tipo de análise. Num ótimo ensaio publicado em 2023 na New York Review of Books, a romancista inglesa Zadie Smith fala a respeito usando como pretexto Tár, filme dirigido por Todd Field.

A personagem-título é uma consagrada regente de orquestra (Cate Blanchett) que enfrenta duas acusações por assédio: o primeiro é moral, depois de ser filmada humilhando um aluno (Max) que disse não gostar de Bach porque ele teria sido misógino, e o segundo é sexual, numa história envolvendo o suicídio de uma regente mais jovem. A tragédia que move a trama é a não percepção, por parte de Tár, de que as ferramentas sociais que ela usou tão bem e por tanto tempo para se manter numa posição proeminente se tornaram obsoletas.

“Você é uma escrota”, diz Max na cena que dá início à derrocada da protagonista. “E você é um robô”, responde ela, sem atentar que a diferença de poder entre os dois é uma variável importante para quem assiste à briga – os outros alunos, a audiência online que terá acesso a uma versão editada de tudo. “Tár é geração X”, escreve Smith, ela – como eu – também integrante desse grupo nascido entre o meio dos 1960 e o início dos 1980. “E uma das coisas notáveis sobre nós é que, apesar de gostarmos de falar entusiasticamente sobre emoções num sentido estético, desprezamos as emoções na dimensão pessoal (…). Não ocorre a Tár que (…) Max pode ter um problema sério de ansiedade. embora nós na plateia notemos seus joelhos batendo.”

Como costuma ocorrer em casos posteriormente vistos como exemplares, atingindo bodes expiatórios culpados ou inocentes, a cena da humilhação em “Tár” é o momento em que o espírito do tempo se precipita como sintoma agudo depois de uma lenta consolidação ao longo dos anos. A ideia de que o gênio artístico perdoa qualquer deslize moral numa biografia, tão comum no Século XX, já faz menos sentido para as gerações posteriores à X. Em paralelo, e ainda nas palavras de Smith, caíram tabus do mercado de ideias como o uso do recurso “ad hominem”: “Um argumento que é direcionado contra uma pessoa em vez de conta a posição dela? Online a pessoa é a posição que ela mantém e vice-e-versa. Opiniões são identidades, e identidades são opiniões”.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 2/4/2026. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um filme – Un Poeta, Simón Mesa Soto.

Um filme difícil – Sirat, Oliver Laxe.

Um disco – The Mountain, Gorillaz.

Uma conversa – Arthur de Faria e Bruna Paulin sobre Elis e Tom (aqui).

Uma HQ – Pérolas Perdidas, Sabina Anzuategui e Bruno Weber (Quelônio, 64 págs.).

Oração à mentira

Se for considerado apenas uma reportagem, é mais difícil o livro oferecer os pretextos nobres que costumam ser evocados na curiosidade por crimes horríveis – entre eles, o que a orelha da edição anuncia como jornada de (auto) conhecimento sobre a alma humana. Porque a perspectiva apenas factual no máximo revelará algum segredo sobre as motivações de Romand, algo tirado das declarações de terceiros e do réu, todas interessadas num nível fácil de desconstruir mesmo à distância. Contra esses limites, há uma resposta também factual, dá qual não se pode fugir eticamente: tudo bem que existam as pequenas ambiguidades, as pequenas nuances, mas no fim elas pouco importam diante da monstruosidade objetiva dessa história.

E no entanto, há outra maneira de ler O Adversário. Nas páginas 28 e 29, narrando a primeira tentativa de conversar com Romand – uma carta que não teria tido resposta até aquele momento –, Carrère diz que ali surgiu a ideia de escrever um romance inspirado no caso. A passagem é um pouco confusa, talvez de propósito, ao deixar aberta a possibilidade de que esse livro ficcional hipotético é aquele que estamos lendo, ao menos em parte. Na página 31, a resposta do réu enfim chega. Em seguida o relato volta à sua presunção de verdade. Há uma piscada de olho aí?

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 20/3/2026, sobre O Adversário, de Emmanuel Carrère. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma montagem – Autobiografia do Vermelho, Daniela Thomas e Bianca Comparato.

Um documentário – Cover Up, Laura Poitras e Mark Obenhaus.

Um filme de ficção – Foi Apenas um Acidente?, Jafar Panahi.

Um ensaio de 2023 – Zadie Smith sobre Tár (aqui).

Uma exposição – Daniel Mello, Verve.

Apanhando o peixe

Por volta de 1920, Henri Focillon queria escrever um tratado sobre a ideia do acidente aplicada à arte: “O artista é como um prestidigitador (…) que tira partido de seus erros, de seus deslizes, e os transforma em proezas – e nunca é tão gracioso como quando transforma o desastre em destreza”. O tratado nunca saiu, mas a passagem que poderia servir como sinopse dele faz parte de outro texto que toca no assunto, Elogio da Mão (Editora 34, 92 págs, tradução, notas e posfácio e Samuel Titan).

Focillon (1881-1943) foi um professor e ensaísta francês que publicou clássicos da história da arte, como Vida das formas (1934), e se exilou nos Estados Unidos durante a ocupação nazista de seu país. A par do eurocentrismo e de algumas ideias datadas, em especial quando trata de fotografia, Elogio da mão é uma amostra preciosa de um dos atributos que nos fazem falar do autor quase um século depois: saber ver, algo mais raro do que parece em críticos, e transformar isso numa escrita à altura. Na tradução de Titan, o livro é saboroso frase a frase, antes mesmo que elas ajudem a formar uma ideia generalizante a partir de obras de Rembrandt, Gauguin, William Blake, Katsushika Hokusai.

Início de texto sobre Henri Focillon e o ensaio Pensar com as Mãos, de Marilia Garcia. Publicado no Valor Econômico, 23/1/20025. Íntegra aqui

Fim de semana

Um livro – Los Peligros de Fumar em la Cama, Mariana Enriquez (Anagrama, 142 págs.).

Outro – O Adversário, Emmanuel Carrère (Alfaguara, 189 págs.).

Um texto – Infinite Jest, 30 (aqui).

Um filme de estreia – Cronologia da Água, Kristen Stewart.

Uma série peso leve – Love Story.

Perfeição imperfeita

A cinquenta quilômetros da Cidade do México há um sítio arqueológico, Teotihuacan, célebre por suas pirâmides em homenagem ao sol e à lua, margeadas por edifícios que eram ocupados por um povo cuja origem não é consenso entre historiadores. Estive lá no início do ano e tentei captar a presença física das construções – a textura das pedras empilhadas, a altura majestosa sob o céu azul – nos limites de uma câmera de Iphone. Não deu certo, claro, porque viajar tem essas peculiaridades antigas: coisas que só in loco conseguimos de fato ver, entender, sentir.

*

Uma viagem é o espaço das digressões longas, de sentido fragmentado. Por exemplo, no México existiu – ou me disseram que existia – uma escola de escrita coordenada pelo grande Mario Bellatin. O método de uma de suas oficinas era curioso: alguém de destaque numa determinada área, fosse ela astrofísica, boxe ou marcenaria, era convidado a dar palestras sobre como é fazer algo bem feito. Os criadores de Teotihuacan poderiam ser esses professores: tudo no sítio foi pensado para potencializar a beleza, a utilidade, o conforto e a simbologia, da escala arquitetônica ao sistema de irrigação, do frescor interno de um palácio aos glifos de plumas e felinos.

*

Lembrei bastante de Bellatin no México. A cada refeição que fazia, a cada vez que reparava nas cores de certas casas e prédios, nos detalhes de um vaso pré-colombiano ou de uma pintura mural do século XX, o conceito de bem feito – a ideia de perfeição – surgia no horizonte. Assim como a ideia contrária: afinal, para um escritor contemporâneo que leve a sério o trabalho, o objetivo nunca é apenas o esplendor técnico, a palavra final estética e política – há mais nuances nesse caminho, que é construído na precariedade frase a frase.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 20/2/2026. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um filme – Valor Sentimental, Joachim Trier.

Um livro – Te Dou Minha Palavra, Noemi Jaffe (Companhia das letras, 208 págs.).

Uma conversa – Ann Comaromi sobre o underground na URSS (aqui).

Outra – Camila Appel sobre o tabu da morte (aqui).

Uma peça – O Céu da Língua, Gregorio Duvivier e Luciana Paes.

Fim de semana

Um livro – Antologia Mamaluca, Sebastião Nunes (Círculo de Poemas, 296 págs.).

Um texto – Vladimir Safatle sobre decolonialismo na Piauí.

Um filme ruim – Depois da Caçada, Luca Guadagnino

Uma exposição na Almeida & Dale – Genor Sales.

OutraVetores.

Fim de semana

Um artigo – Rachel Aviv sobre Oliver Sacks (aqui).

Um disco – Michelangelo Dying, Cate Le Bon.

Um filme ok – Smashing Machine, Bennie Safdie.

Uma exposição na Cidade do México – Lilia Carillo, Belas Artes. 

Um sítio arqueológico – Teotihuacán.

Esplendor e cegeira

Em 1946, John Hersey ocupou um número inteiro da revista The New Yorker com uma das maiores reportagens da história, sobre os efeitos da bomba atômica na vida de seis pessoas em Hiroshima. Naquelas mesmas páginas, em 1962, um texto de Rachel Carson mudou a visão do público norte-americano sobre inseticidas e ecologia. Já em 1965, Truman Capote publicou seu controverso “romance de não ficção” – que viraria o best-seller A Sangue Frio – sobre dois assassinos condenados à morte no Kansas.

A lista poderia seguir. Joseph Mitchell e a invenção de um certo tipo de olhar sobre pessoas comuns; Lillian Ross e a consolidação em alto nível do gênero perfil; Hannah Arendt e o ensaio “Eichmann em Jerusalém”: todos são feitos editoriais da New Yorker, cujo centenário é o tema de The New Yorker: 100 anos de história (2025), documentário que estreou na Netflix com direção de Marshal Curry e produção executiva de Judd Apatow.

Vale a pena ver o filme, e vale a pena ir atrás do que o filme não mostra. Hersey, Carson e Capote são comentados com vagar, como deve ser, e Mitchell, Ross e Arendt nem aparecem. Nomes indissociáveis da história da revista, como J.D. Salinger e Pauline Kael, são citados quase imperceptivelmente, no meio de sequências que parecem estar ali só para cumprir tabela, enquanto figuras contemporâneas que publicaram artigos eventuais dão depoimentos encenados e comuns – casos do ator Jesse Eisenberg e da atriz Molly Ringwald.

Claro que o tempo é limitado para falar de um assunto tão amplo, e eu nada tenho contra Eisenberg e Ringwald – duas figuras talentosas fora do contexto de suas falas no documentário. A opção de The New Yorker… é a de um diálogo entre passado e presente, tendo como fio condutor a preparação de um número de aniversário, o que casa com a natureza mutante do formato revista. Não seria acurado falar de uma publicação que continua viva aos 100 anos limitando-se a reconstituir proezas em velhas páginas impressas, ignorando as mudanças que décadas recentes trouxeram em termos de tecnologia, diversidade de vozes, interação com o público.

O problema das escolhas de Curry não tem a ver com isso, e sim com questões ignoradas talvez por oficialismo, talvez por autoindulgência. No filme há cenas curiosas sobre a rotina no prédio onde hoje funciona a redação e piadas simpáticas com as manias do seu lendário departamento de checagem – onde os textos passam pelo que alguém chamou de “colonoscopia”. Também há uma autocrítica moderada sobre a demora com que a New Yorker incorporou temas raciais em suas páginas (via ensaios de James Baldwin nos 1960) e o preciosismo elitista de sua prosa média (o que rende uma boa passagem sobre a cobertura da segunda campanha de Trump). Mas isso tudo ainda é referencial demais, centrado demais na história interna da revista, como se ela não fizesse parte de um contexto mais amplo: o da ascensão econômica, política e cultural dos Estados Unidos, fenômeno que começa no século 19 e chega ao seu apogeu no 20.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 9/1/2026. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um romance – Solenoide, Mircea Cărtărescu (Mundaréu, 784 págs.).

Uma entrevista – George Saunders no The Daily.

Um museu na Cidade do México – Antropologia.

Outro – Belas Artes.

Um terceiro – Soumaya.

Fim de semana

Uma exposição no IMS – Gordon Parks.

Outra – Agnès Varda.

Um romance – Filha, Manoela Sawitski (Companhia das Letras, 128 págs.).

Um ensaio de 1984 – Nadine Gordimer sobre Coetzee (aqui).

Um disco – Vida Amorosa que Segue – Vol II, Lulina.

Vírgulas e sintomas

Em O Imperador de Todos os Males, seu tratado médico, histórico, político e cultural sobre o câncer, Siddhartha Mukherjee diz que todo paciente começa como um narrador: “Nomear uma doença é descrever certa condição de sofrimento – é um ato literário antes de ser um ato médico.” Penso na frase ao ler Batida Só, novo romance de Giovana Madalosso (Todavia, 236 págs.), que abre com uma jornalista descobrindo ter uma arritmia grave.

A voz do livro é em primeira pessoa, e seu ato literário mistura forma e substância até na pontuação, com as vírgulas emulando as batidas cardíacas em momentos emocionais importantes (“eu não estava sentindo nada e,,,”, “mesmo assim, teve um momento em que,,,,,,,”). Não é um detalhe gratuito: tudo está ligado ao fator humano, num ritmo que acompanha a jornada da protagonista – visitas a médicos, uma temporada na casa da família no interior, o envolvimento com o drama de uma amiga de infância cujo filho está doente.

Giovana é uma escritora com domínio do ofício, algo mais raro do que parece num país cuja ficção recente tende ao declaratório, ao jorro confessional. Seus romances têm a qualidade de nunca afundar em simbologias ou recados muito acima ou abaixo do nível da trama. Em Batida Só, o equilíbrio sustenta o que se poderia definir como tema de fundo, uma crise de fé: se o discurso mais convicto sobre religião e suas derivações está sempre na boca de personagens vistos à distância, às vezes com ironia, o que afasta o risco da pompa ou da autoajuda, isso não tira a perplexidade da narradora – seu olhar para outro tipo de mistério, o da nossa biologia.

Trata-se de metafísica, no fim? Em O imperador…, Mukherjee fala da dubiedade simbólica de seu objeto de estudo: células que acabam causando o mal por operarem demais em suas funções benignas de reprodução. Um trecho de Batida Só diz algo parecido, envolvendo a criança doente e também a protagonista, o coração dela ali, batendo e deixando de bater por motivos que nos apavoram e fascinam: “Como pode um corpo apontar, ao mesmo tempo, para a vida e a morte?”

Início de texto sobre Batida Só e os romances Devastação (José Castello) e Pandora (Ana Paula Pacheco), publicado no Valor Econômico em 23/08/2025. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um ensaio – Elogio da Mão, Henri Focillon (Ed 34, 92 págs.).

Um livro de poesia – Sílex, Eliane Marques (Círculo de Poemas, 72 págs.).

Uma conversa – Ben Moser sobre V.S. Naipaul no Empire.

Um filme melhor do que parece – O Amigo, Scott McGehee e David Siegel.

Um disco de 2007 – Para Marte, Mauricio Pereira.

Entre Tim Maia e Dorian Gray

Como cansa gostar de Morrissey. De tempos em tempos preciso lembrar que ele continua sendo um gênio – justamente até 1987, quando sua banda se separou. Também continua sendo um grande artista – entre o fim dos Smiths e o melhor álbum solo gravado por ele, Vauxhall and I (1994). De lá para cá, é penoso lidar com o fato de que os momentos de brilho foram se tornando esparsos, assim como a paciência com uma figura que se esforça para destruir a própria imagem.

Não vou cair no clichê da separação entre artista e obra, até porque no caso de Morrissey isso não existe. Para o bem e para o mal, o romantismo professado por ele demanda uma simbiose absolutista entre as duas esferas. É só ver como traços pessoais mostrados em Autobiography ganham extensão em dezenas de músicas escritas ao longo da carreira: os sofrimentos da juventude e o fascínio pela tristeza (Everyday is Like Sunday), o narcisismo individualista na vida adulta e a solidão autopiedosa (Please, Please, Please, Let Me Get What I Want), uma longa fase de celibato declarado e a idealização de amores impossíveis (There is a Light That Never Goes Out).

Somada a isso, a misantropia revelada no livro é um traço presente em letras que ironizam tanto figuras odiosas do poder quanto imigrantes (Bengali in Platforms), grávidas (Pregnant for the last time), crianças (November Spawned a Monster). Também uma pessoa no hospital (Girlfriend in a Coma), uma pessoa que se afogou (Lifeguard Sleeping, Girl Drowning), pessoas que gostam de sol (The Lazy Sunbathers), pessoas queridas que fazem sucesso (We Hate it when our Friends Become Successful). Quem se salva nesse imaginário venenoso são justamente os que estão longe das sujeiras do convívio humano: os anti-heróis mortos das lendas juvenis (o gângster de First of the Gang to Die), os personagens literários (o marinheiro melvilliano de Billy Budd), os animais simbólicos de uma inocência intocada (os bezerros e perus de Meat is Murder).

Claro que a crueldade de Morrissey está ligada a um certo tom de comédia, ou ao menos de paródia. O próprio cantor sempre deu indícios de autoironia em meio ao fel de sua produção – nas entrevistas, nos gestos no palco, nas roupas, no topete. Isso foi o que o salvou do traço repulsivo que suas convicções intransigentes tendem a alimentar: algo em sua obra conseguiu flutuar numa dubiedade vívida, em versos cantados com uma voz doce que às vezes sugere empatia, às vezes distância e desprezo. Numa fase mais recente, contudo, seja ela chamada de estilo tardio ou de qualquer outro nome, é como se a ambivalência de registros fosse extinta para dar lugar ao mofo literal – e não podemos recuar da consciência de que o belo também vem dessa fonte agora exposta.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 5/12/2025. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um disco – Pianolatria, Cristian Budu.

Um filme – Train Dreams, Clint Bentley.

Uma releitura – Train Dreams, Dennis Johnson (Granta, 116 págs.).

Um livro de poesia – Nuvens, Hilda Machado (Ed 34, 96 págs.).

Um romance de estreia – Instruções Para Desaparecer Devagar, Flávia Iriarte (Faria e Silva, 156 págs.).

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