Seis da manhã eu despertei. Não lembro ao certo meus sonhos,
mas despertei como quem dormiu por muitas horas a fio, como quem dormiu sem
descanso. Demorei um pouco para perceber que, de fato, havia acordado, só então
abri os olhos. As paredes sujas do meu lado continuavam sujas, minha gata ao pé
da cama roncava discretamente, dois copos sujos de café e uma lata de cerveja
vazia descansavam na cabeceira. Para além das janelas talvez chovesse, chuva em
si, não sei, o que sei é que, com certeza, uma gota ou outra caía, já há dois
dias que é assim. A sensação de acordar as seis de uma manhã chuvosa, sem ter
motivo algum para isso, confesso, não é das melhores. Dias de chuva, é bem
sabido, foram feitos para dormir. Dormir e comer. Acordar de sonhos desconhecidos
não é bem o ideal. Que seja.
Acordei com uma historia na cabeça, pensei em contá-la, já
faz tempo que não conto uma. Mentira, não era bem uma historia, com
começomeioefim, diálogos, blábláblá, dois pontos e travessão, essas bobeiras.
Era a imagem de um momento, um abraço, talvez, um beijo, um olhar, um sorriso.
Uma dessas pieguices quaisquer que aparecem quando menos esperamos e
acreditamos que merecer ser contadas.
A minha historia, meu momento matinal, não passava mesmo, de
um olhar. Noite, talvez chuvosa como a manhã em que fui acometido, imagino os
vidros do ônibus molhados, embaçados. Sim, definitivamente uma noite chuvosa.
Mas, nesse momento, a chuva é fina e quase insignificante. Alguém desce do
ônibus. Talvez jovem, ou velho demais, não importa, afinal, o que é corpo e o
que é espírito aqui está fundido e não faz tanta diferença. Alguém desce, e
caminha coisa de três, quatro passos, desvia de uma poça, e lança então um
olhar certeiro para uma janela bem especifica do ônibus que já começa a dobrar
a esquina.
Quando o ônibus quase termina a curva, é que, finalmente,
começa a historia. Antes era só contexto. A chuva, os três ou quatro paços, o
desvio da poça. Quando o alguém levanta o olhar, e encontra, infalível, seu
alvo, é que vem realmente o que quero contar. Dois olhares se cruzam, então.
Um, na rua molhada iluminado pela luz amarelo-doença dos postes. O outro,
dentro do ônibus, tímido. Um olhar que queria, antes de tudo, demonstrar que
não está ali. Porém, o vidro embaçado com suas charmosas gotas não dá conta de
camuflá-lo. O outro olhar está sim, ali, e não há nesse mundo nada que o
esconda. E quando olhares se cruzam, e você com certeza já passou por isso e
sabe o que digo, não importa a distancia. Quando olhares se cruzam, todos os
detalhes dos outros olhos aparecem. São como se vistos de perto. O tempo para,
o foco se mantém, eternamente, ali. E é tudo o que importa.
A narrativa então, se encaminharia para o final. O ápice. O
tímido olhar, de dentro do ônibus, ao perceber que não conseguira se esconder,
ao perceber que, fazendo do seu observador refém, se torna, também, cativo,
deixa escapar um sorriso. Tão eterno quanto a troca de olhares. O ônibus
termina a curva, segue seu rumo. Os letreiros sobem acompanhados de uma musica
instrumental.
Eis aí o que poderia ser um belo conto para ficar perdido
pela eternidade. Sumariamente, e com razão, ignorado pela humanidade. Um conto
piegas sobre olhares trocados. A grandeza está na simplicidade, blábláblá.
Concordo. Mas sobre isso já muito foi dito. Eis aí, então, a imagem que me arrebatou
assim que abri os olhos injustificadamente as seis de uma manhã chuvosa.
Porém, contos que nasceram esquecidos, oriundos de uma
imagem-sonho, não fazem jus a realidade. Um breve momento narrado poeticamente
pode ser bonito mas, por mais que pareça ter um fim em si mesmo, jamais terá.
Cada momento é, sempre, o começo de mais um. Não existe roteiro que termine de
fato. A troca de olhares, o sorriso tímido, são, ainda, o começo de mais uma historia.
A vida é assim, nunca sabemos quando uma historia vai ou não
começar, mas podemos decidir quando as daremos por terminadas.
E podemos, também, escolhermos aquelas que iremos contando,
dia a dia, para o resto de nossas vidas.


