Tenho a carne
dorida Do pousar de
umas aves Que não sei
onde são: Só sei que
gostam de vida Picada em meu
coração. Quando vêm, vêm
suaves, Partindo, tão
gordas vão!
Como eu goto de
estar Aqui na minha
janela A dar miolos às
aves! Ponho-me a
olhar para o mar. – Olha um navio
sem rumo! E, de vê-lo,
dá-lho a vela, Ou sejam meus
cílios tristes: A ave e a nave,
em resumo, Aqui, na minha
janela.
vitorino nemésio nem toda a noite a vida antologia poética asa 2002
Fala também tu, fala em último
lugar, diz a tua
sentença.
Fala – Mas não separes
o Não do Sim. Dá à tua
sentença igualmente o sentido: dá-lhe a
sombra.
Dá-lhe sombra
bastante, dá-lhe tanta quanto exista à
tua volta repartida entre a meia-noite e
o meio-dia e a meia-noite.
Olha em redor: como tudo
revive à tua volta! – Pela morte! Revive! Fala verdade
quem diz sombra.
Mas agora reduz
o lugar onde te encontras: Para onde
agora, oh despido de sombra, para onde? Sobe. Tacteia no
ar. Torna-te cada vez
mais delgado, irreconhecível, subtil! Mais subtil: um
fio, por onde a
estrela quer descer: para em baixo
nadar, em baixo, onde pode
ver-se cintilar: na ondulação das palavras
errantes.
paul celan sete rosas mais tarde antologia poética trad. joão
barrento e y. k. centeno relógio d´água 2023
Como pareço estar completamente arrumado – durante o ano passado não
estive acordado mais do que cinco minutos – terei de desejar todos os dias
ver-me fora do mundo, ou, sem no entanto
ser capaz de encontrar a mais leve esperança nisso, terei de começar tudo do
princípio como uma criança. Ser-me-á, extraordinariamente mais fácil do que
então. Porque nesses dias eu ainda lutava com um pressentimento débil e por um
estilo que de palavra a palavra estivesse ligado à minha vida, que eu deveria
apertar ao peito e que me transportaria para fora de mim próprio. Com que dor
(claro, não se pode comparar com a presente dor) eu comecei! Que golpes me
perseguiam todo o dia vindos do que eu tinha escrito! Como era grande o perigo e
como operava ininterruptamente, de tal modo que eu não sentia o gelo, o que no
fundo não minorava em muito a minha infelicidade.
Um dia imaginei um romance em que dois irmão lutavam um contra o outro,
tendo um deles ido para a América e o outro ficado numa prisão da Europa. Comecei
só de vez em quando a escrever umas linhas, porque logo me cansava. Por isso
escrevi uma vez sobre a minha prisão numa tarde de domingo, quando estávamos de
visita aos meus avós e tínhamos comido um pão especialmente mole, barrado de
manteiga, que costumava haver lá. É bem possível que tenha feito aquilo em
grande parte por vaidade, e, ao mexer com o papel na toalha, ao bater com o
lápis na mesa, ao olhar em volta por sob o candeeiro, queria tentar alguém a
tirar-me o que tinha escrito, a olhar para aquilo e a admirar-me. Era principalmente
o corredor da prisão que aquelas linhas descreviam, acima de tudo o silêncio e
o frio; também havia uma palavra de simpatia para com o irmão que por cá ficou,
porque era o bom irmão. Talvez tivesse sentido momentaneamente que a minha
descrição não tinha qualquer valor, só que antes daquela tarde eu prestava
muita atenção a tais sentimentos quando estava entre família a quem estava
habituado (a minha timidez era tal que a habituação me fazia sentir já meio
feliz), sentado à mesa redonda numa sala conhecida, e não podia esquecer que
era jovem e destinado a grandes coisas a partir desta minha tranquilidade
presente. Um tio que gostava de fazer troça das pessoas acabou por tirar a
folha que eu segurava mal, olhou para ela de relance, voltou a dar-ma, até
mesmo sem se rir, e só disse para os outros que o estavam a seguir com os
olhos: «O costume»; não me disse nada a mim. Continuei sentado, debruçado como
antes sobre a minha folha agora sem uso, mas de facto tinha sido expulso do
convívio com um empurrão, a apreciação do meu tio repetia-se em mim com um
significado já quase real, e eu tive, mesmo sentindo que pertencia a uma
família, o vislumbre do lugar gelado do nosso mundo, que teria de aquecer com
um fogo que eu queria primeiro procurar.
franz kafka diários (1910-1923) trad. maria adélia silva melo difel 1986
Quando, no mais
fastidioso fim de Novembro, A sua velha luz
se alonga pelos ramos, Frágil,
lentamente, dependendo deles; Quando o corpo
de Jesus queda num palor, Humanamente próximo,
e a figura de Maria, Tocada pelo
orvalho, se recolhe num abrigo Feito de
folhas, que apodreceram caíram; Quando sobre as
casas, uma ilusão dourada Traz de volta
uma época primitiva de paz E sonhos
pacificadores às pantufas no escuro –
Há muito que
deixei aquela praia De grandes
areais e grandes vagas Mas sou eu
ainda quem na brisa respira E é por mim que
espera cintilando a maré vazia
sophia de mello breyner andresen dual caminho 2004
Era o quarto da
Mãe com uma cama escura,
uma gravura da gruta de
Lourdes, uma colcha verde, uma
Singer de cabeça
escondida, panos de crochet com
fotos de parentes perdidos, o roupeiro
ainda com as toucas de baptismo e o grande
gavetão com as mantilhas de ir à missa e uma bisnaga
de perfume vazia.
inês lourenço o segundo olhar companhia das
ilhas 2015
Chegaram tarde à minha vida as palmeiras. Em Marraquexe vi uma que Ulisses teria comparado a Nausica, mas só no jardim do Passeio Alegre comecei a amá-las. São altas como os marinheiros de Homero. Diante do mar desafiam os ventos vindos do norte e do sul, do leste e do oeste, para as dobrar pela cintura. Invulneráveis – assim nuas.
eugénio de andrade rente ao dizer poesia fundação
eugénio de andrade 2000
É verão. Vou pela
estrada de sintra por sinal pouco
misteriosa à luz do dia ao volante de
um carro que não é um chevrolet e nesse ponto
apenas se perdeu a profecia Não há luar nem
sou um pálido poeta que finja
fingir a sua mais profunda emoção Chove uma chuva
que me molha os olhos e me leva a
sentir saudades do inverno: a luz o cheiro
a intimidade o fogo Quem me dera o
inverno. Talvez lá faça sol e eu sinta aflitivas
saudades do verão: uma estação na
outra é a autêntica estação
ruy belo todos os poemas I verão assírio &
alvim 2004
As mãos no poema, pelas páginas acima escoam-se os espelhos, a trovoada vermelha emerge das imagens. A trovoada redonda. Uma revoada de espelhos é a alba, há poços nos espelhos onde a nudez se precipita, a luz mordendo a água.
Do poema vêem-se as trovoadas imóveis atrás da página, as imagens, da alba, as dum rapaz arriando a noite, os astros a afluírem-lhe aos cabelos. Vêem-se à tona da trovoada os lenços caindo na manhã, com as veias do rapaz as desta a confundirem-se, depois os poços da nudez abertos pelos astros.
Esse rapaz as suas próprias veias o amarram à manhã. Não me olhar ele ateia-me. Pequenos incêndios, os da abóbada do poema, arrancam-lhe a nudez. Está alguém ao poema como a um espelho.
luís miguel nava películas poesia completa (1979-1994) publicações dom
quixote 2002